A morte de Marielle e a manutenção do Brasil da fantasia

15 de Março de 2018
Por Henry Galsky O Brasil vive dois movimentos de países distintos. O primeiro deles – o oficial – é a síndrome do eterno retorno. A narrativa construída desde o processo de redemocratização estabelecendo a busca permanente pela caça aos marajás; a luta contra a corrupção. Há símbolos distintos deste Brasil: Fernando Collor de Mello, no momento seguinte à reabertura; o ex-juiz Joaquim Barbosa, que ocupou este lugar entre as manifestações de junho de 2013 e o impeachment da presidente Dilma Rousseff; e, finalmente – até agora –, o juiz Sérgio Moro, protagonista da busca implacável ao ex-presidente Lula. 

Este é o país de um extrato da população. Esta é a obsessão de parte do Brasil, de uma parcela representada pela Avenida Paulista lotada de uma multidão vestida com camisas da confederação de futebol cujos dirigentes ou estão presos ou não podem pôr os pés fora do país. A confederação em permanente investigação – pelas polícias e departamentos de justiça da Suíça ou dos EUA, não os daqui. 

Este é o Brasil desta multidão metalinguística de patos que tiram selfies de patos. Parte desta turma hoje olha para trás e, se não está arrependida, pode estar envergonhada. Este Brasil é o que caiu no conto do país a ser consertado pelo projeto político que – com o voto do Brasil por inteiro – tem sido derrotado nas urnas sucessivamente ao longo do século 21 até não suportar mais e partir para tomar a presidência na mão grande. 

O Brasil do mundo da fantasia é um país que repete mil vezes – para ver se vira verdade – que a crise está terminando, que os empregos estão sendo retomados, que o PIB de 1% é sinal de recuperação e de que vivemos todos numa democracia. 

O Brasil da fantasia é governado pelo presidente-investigado (ou investigado-presidente) que usufrui do cargo e da faixa, mas é o presidente mais impopular da história. Apesar disso, é o símbolo máximo de sucesso de um partido, o MDB (que, fantasticamente, quer dizer, apesar da realidade dos fatos, Movimento “Democrático” Brasileiro). Este país da fantasia tem cargo, voz e um líder do governo autor de um clássico democrata recente: “é preciso botar o Michel lá. Fazer um acordo com o supremo, com tudo”. 

Há, no entanto, um outro Brasil. O Brasil da realidade. Um país que, ao contrário deste aí de cima, vive uma outra síndrome do eterno retorno; a da falta de representatividade. 

De vez em quando, este Brasil reaparece. Na maior parte das vezes, aparece e morre. Foi este Brasil que morreu mais uma vez com a execução da vereadora do PSOL Marielle Franco. 

A terrível efeméride fez com que Marielle fosse assassinada 30 anos depois de Chico Mendes. Chico e Marielle, dois símbolos do Brasil real, dois mortos no processo de disputa pela manutenção do Brasil da fantasia. Do Brasil dos muitos patos da Avenida Paulista. 

É claro que Marielle foi assassinada. Chamar de opositores seus algozes é apequenar o significado não apenas do ato, mas da vida de Marielle. Como Chico Mendes em sua luta por um país que dependia da sobrevivência da Floresta Amazônica, Marielle morreu não apenas pelas denúncias contra a violência policial ou pelo olhar atento em relação à intervenção militar. 

Marielle morreu como parte do processo permanente de disputa entre esses dois Brasis: o da fantasia e o da realidade.  Marielle é símbolo de uma realidade alternativa em que mulheres negras e pobres ascendem graças ao esforço próprio em busca de educação. 

Marielle cometeu a audácia de se formar na universidade, de fazer mestrado e, pior, de conseguir ter voz, representatividade política. O Brasil da síndrome do eterno retorno, da “ponte para o futuro”, da luta permanente para pôr Lula na cadeia amanhã (e que julga e condena o ex-presidente na velocidade da luz enquanto permite que os processos contra representantes dos demais partidos prescrevam) não perdoa. Mariele recebeu a pena de morte.

Sua execução é parte da luta e da ruptura entre os dois Brasis. Não chamem de opositores seus assassinos, é muito pouco. A cada 30 anos o Brasil é acordado de sua matrix pelo assassinato de Chico Mendes ou de Marielle. Mas depois volta a dormir e a sonhar abraçado com um pato.