Vladimir Putin vence novamente

19 de Março de 2018
Por Henry Galsky Mais seis anos de Putin reinando na Rússia. O resultado não é nem um pouco surpreendente, principalmente porque o presidente russo é o homem forte do país não apenas em seu executivo, mas é também uma espécie de sócio-fundador de um clube particular. Desde 2000 no poder, Putin estará à frente do país pelo menos até 2024. É, portanto, o homem que moldou a Rússia no século 21 – não sabemos quem será seu sucessor e isso não vem ao caso neste momento.

O presidente Putin tem a situação nas mãos: a oposição está presa ou morta. Os adversários com alguma relevância são banidos do processo eleitoral. Os jornalistas que o denunciam são calados também com prisão ou morte. Ao mesmo tempo – e apesar disso – é amado por boa parte da população. A taxa de aprovação ao presidente está na casa dos 80%. A fórmula de que faz uso é conhecida e tem como origem sua carreira de sucesso na KGB, o serviço secreto da extinta União Soviética.

Para o público interno, Putin tem se valido de duas narrativas principais: a primeira delas, a de que há uma série de conspirações internacionais para impedir que a Rússia retome o protagonismo perdido depois do fim da Guerra Fria. Um momento para a verdade é que, depois da queda da União Soviética, em 1991, havia a impressão de que os EUA haviam vencido a disputa contra o comunismo. Esta interpretação histórica – até parte de um senso comum – ganharia ainda mais força no ano seguinte, quando os europeus ocidentais fundaram formalmente a União Europeia. Os russos estariam, portanto, oficialmente superados.

Toda essa história verdadeira ganhou muita força a partir da ascensão de Putin, em 2000. A promessa de segurança, força e retorno ao cenário mundial estão na base do discurso e do sucesso do presidente russo. Assim, mesmo as sanções internacionais e o isolamento provocado pelos europeus funcionam como lenha da locomotiva russa. Putin e sua casta de oligarcas e burocratas são a força que permite o retorno do país. Quanto mais são acusados pelas lideranças estrangeiras – especialmente americanas e europeias – , maior é o sucesso diante do público interno. Este é um lado da história.

A outra narrativa de sucesso é mais palpável sob aspectos numéricos, muito embora tenha grande relação com a disputa entre russos e os inimigos europeus e americano; depois da grave recessão enfrentada entre 2014 e 2017 (cuja origem são a queda do preço do petróleo e justamente as sanções internacionais aplicadas depois que a Rússia anexou o território ucraniano da Crimeia, em 2014), a administração em Moscou está conseguindo tirar o país da crise. A projeção é de crescimento de 1,7% em 2018 e 1,8% no ano que vem. O desemprego – que chegou a 9,5% em 2009 – tem caído sucessivamente, alcançando 5,2% em janeiro deste ano. Como comparação, a taxa de desemprego oficial no Brasil é de 12,2%.

Os episódios recentes apenas reforçaram as duas narrativas complementares. A Grã-Bretanha acusa a Rússia de estar por trás do envenenamento de um ex-espião russo e de sua filha em Salisbury, no sul da Inglaterra. Sergei Skripal e Yulia Skripal estão internados em estado grave. Na quarta-feira, 14 de março, a primeira-ministra britânica, Theresa May, expulsou 23 diplomatas russos do país como retaliação ao ataque. O governo russo seguiu o mesmo caminho, ordenando a expulsão de 23 diplomatas britânicos da Rússia.

A crise resume o modo de atuação de Putin. O presidente russo nega participação. Da mesma forma, negou a presença de tropas do país na Crimeia, em 2014, também negou o sistemático  doping de atletas e, seguindo esta linha de negativas, ironiza as acusações de interferência no processo eleitoral americano de 2016. A posição permanente de Moscou é de acusar as acusações e tomá-las como parte das sucessivas tentativas de minar o poder do país.

A Rússia não apenas faz uso constante desta estratégia como também adicionou elementos que só há pouquíssimo tempo o mundo passou a conhecer; os exércitos de robôs, a fabricação e ampla divulgação de notícias falsas e a adoção do discurso que está sendo chamado de “pós-verdade”. Todo este escopo conceitual é aplicado no dia a dia da política externa russa. E este arsenal carrega respostas sistemáticas para as ações e acusações internacionais.

Por isso, a declaração conjunta das lideranças de EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha – por mais rara que seja – não altera a realidade que confere status, permanência e estabilidade ao Kremlin. Pelo contrário. Além da expulsão de diplomatas, as retaliações britânicas são simbólicas e com pouco efeito prático: incluem o cancelamento da visita do ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov ao Reino Unido, além do anúncio de que ministros e membros da família real não estarão presentes na Rússia durante a Copa do Mundo.

Consigo imaginar o volume do riso de Putin diante disso. Os simbolismos não causam incômodo a uma hierarquia política que joga a estratégia do inimigo externo. Neste momento, inclusive, os russos apresentam os números que mencionei acima, deixando evidente a recuperação da economia do país. Moscou superou as sanções. Há apenas um caminho que pode colocar Putin em xeque. E concluo com o raciocínio de Anne Applebaum, colunista do Washington Post:

“A verdadeira questão para a Grã-Bretanha – bem como para a França, a Alemanha e os Estados Unidos – é se estamos dispostos a acabar completamente com a relação financeira. Poderíamos proibir os paraísos fiscais nas Ilhas Virgens, bem como em Delaware e Nevada; poderíamos tornar impossível comprar propriedade anonimamente; poderíamos banir empresas russas com origens duvidosas de nossas bolsas de valores”.