A democracia sequestrada na internet

22 de Março de 2018
Por Henry Galsky Foram os britânicos do Observer que iniciaram as investigações sobre o escândalo envolvendo a empresa Cambridge Analytica. A história se espalhou e agora é objeto de incontáveis matérias ao redor do mundo. No centro da história – tão ou mais grandiosa do que os sucessivos segredos revelados pelo WikiLeaks – está um jovem canadense, Christopher Wylie, que afirma ter “quebrado” o Facebook a mando de Steve Bannon, ex-estrategista chefe da campanha de Donald Trump. 

A Cambridge Analytica era parte da campanha de Trump. Também atuou de maneira fundamental durante o referendo que culminou com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), o chamado Brexit. A CA coletou informações de mais de 50 milhões de pessoas no Facebook, levando a gigantesca rede social a ser acusada de violação de dados. O foco da CA – durante a campanha eleitoral americana e o Brexit – era construir um software capaz de influenciar os votos de milhões de eleitores. Nessas duas situações, a empresa conseguiu obter os resultados que buscava. 

Sobre a CA pesam acusações de que, desde o início de 2014, teria acessado informação sem autorização prévia de modo a traçar perfis de eleitores e, assim, produzir anúncios e material de campanha precisamente direcionados – o que tem sido chamado de “microtargeting”. 

A violação sistemática dos perfis foi realizada com sucesso a partir de Aleksandr Kogan, acadêmico de origem russa que trabalhava na Universidade Cambridge, no Reino Unido. Um aplicativo criado por ele no Facebook pagou a centenas de usuários para que se submetessem a um teste psicológico e também liberassem seus dados virtuais. 

A empresa de Kogan, a Global Science Research (GSR), em associação com a Cambridge Analytica, conseguiu autorização dos usuários que fizeram o teste para que tivessem acesso estendido aos dados de seus amigos no Facebook. É este o ponto de discórdia entre Facebook, GSR e CA. O Facebook considera como violação de sua política de privacidade a divulgação de dados de terceiros. 

A discordância entre as três empresas não impede que os fatos tenham ocorrido. CA e GSR conseguiram manipular diretamente duas das maiores disputas políticas contemporâneas, espalhando notícias falsas e conteúdo personalizado. CA e GSR, empresas privadas, têm em seu poder os perfis psicológicos de 230 milhões de americanos. Este é um dado concreto. 

Em 2010, Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, zombou da revista Time quando a publicação elegeu como personalidade do ano e estampou em sua capa Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook. Na ocasião, Assange mandou um recado que se aplica bem à situação atual: “vocês estampam como personalidade do ano alguém que recolhe suas informações e dados e os vende a empresas privadas. Eu investigo e coleto dados que os governos não querem que sejam conhecidos e os revelo para o mundo todo”, disse. 

Assange não é um exemplo de altruísmo, pelo contrário. Ele mesmo elege alguns aliados para poupar, caso do presidente russo, Vladimir Putin. Mas o paralelo que ele fez em 2010 vale para os dias de hoje. Estamos diante de um desses casos que mudam a história. 

Há políticos e governos interessados nesta parceria com empresas de análise e manipulação. Steve Bannon, ex-aliado de Donald Trump (homem forte da campanha presidencial e ex-estrategista chefe do governo) é a conexão entre esses dois mundos. Seu sucesso é, de certa maneira, retrato de um tempo que acaba de nascer.

Bannon participou da fundação do Breibart News, site que está no centro da reverberação do discurso da extrema-direita e de sua nova roupagem. Primeiro os EUA, depois o mundo. 

Antes de estar formalmente na campanha de Trump e posteriormente com acesso ilimitado às decisões da Casa Branca, Bannon foi vice-presidente, vejam só, da própria Cambridge Analytica. 

Bannon é um especialista no cruzamento entre dados obtidos nas redes sociais e a política. Mais ainda, é um entusiasta do que chama de ideias “populistas” – o nome que tem usado para descrever os movimentos nacionalistas; a extrema-direita. O valor de tê-lo na equipe está nas narrativas de sucesso recentes que apresenta: eleição americana e o Brexit; a vice-presidência da Cambridge Analytica. Ele é a ponte que transforma grande volume de dados em sucesso eleitoral. É o nome que cunhou uma nova forma de manipulação. É a chave que promete ampliar globalmente o velho nacionalismo renovado. 

Em março, foi recebido pelos principais nomes da extrema direita europeia – o movimento que se identifica como parte de uma causa única e que já conseguiu obter votações expressivas – ou mesmo a vitória – na França, Itália, Alemanha, Áustria e Hungria. Bannon quer criar sites como o Breitbart e ensinar suas técnicas de sucesso eleitoral em todo o mundo.
 
No século 21, a extrema-direita está dando passos cada vez mais acelerados para ser protagonista nos centros decisórios mais importantes. Não faz muito tempo, os resultados eram tímidos; a presença de Marine Le Pen no segundo turno nas eleições presidenciais francesas; a ascensão de Viktor Orban como primeiro-ministro da Hungria, em 2010. Em curto prazo, sucesso nos EUA e na Itália. 

Ninguém sabe se o plano continuará a ter sucesso, mas está claro que, em vez de acabar com regimes democráticos, basta ter nas mãos as ferramentas de manipulação corretas. Esta foi a invenção de Steve Bannon e da Cambridge Analytica, que se orgulha de criar matérias e acusações falsas para derrotar a oposição ao seu cliente. Bannon e a CA aplicarão suas técnicas sempre que forem requisitados. Justamente por perceberem esta oportunidade, os políticos de extrema-direita foram um a um prestar homenagens a Bannon e a cortejá-lo em sua passagem pelo continente. 

O Channel 4 britânico investigou a fundo a CA. Inventou um cliente falso e conseguiu se aproximar do alto escalão da empresa. Nas reuniões filmadas com câmera escondida, conseguiu obter as informações que estão sendo divulgadas sobre a forma como a Cambridge Analytica atua. Uma das revelações é que a empresa está a caminho do Brasil. 

O caso Marielle mostra o poder das notícias falsas na tentativa de manipular a opinião pública. Nas eleições presidenciais de outubro – se elas realmente ocorrerem – as fake news serão usadas amplamente na disputa. Se de fato a CA colocar à disposição de algum candidato suas ferramentas de “trabalho”, teremos por aqui um ambiente ainda mais explosivo do que o atual.