Brasil: terreno fértil para o sucesso da Cambridge Analytica

27 de Março de 2018
Por Henry Galsky Há no Brasil dados alarmantes sobre analfabetismo. Não me refiro apenas à capacidade de ler e escrever, mas principalmente de interpretar textos jornalísticos e artigos de opinião. De acordo com estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa, apenas 8% de todos os brasileiros podem ser considerados proficientes. Ou seja, conseguem interpretar textos e se expressar por escrito de maneira clara. Considerando-se a população atual do país – pouco mais de 207 milhões de pessoas – há, portanto, tão somente cerca de 16,5 milhões de brasileiros proficientes.

Realizar esta grande lacuna educacional é por si só entender a dimensão e dificuldade do imenso trabalho a ser feito. No entanto, o ano eleitoral brasileiro apresenta desafios básicos de comunicação. Esses números configuram grandes possibilidades de sucesso para grupos interessados na disputa política. E aí retomo parte da análise que escrevi sobre a Cambridge Analytica, a “consultoria” política que passou de case de glória cujos executivos eram aplaudidos em congressos de publicidade a protagonista do maior escândalo de fraude de dados e manipulação no ambiente digital.

Como escrevi, as matérias do Channel 4, Guardian e Observer que revelaram o modo de atuação da CA apresentaram também um aspecto de grande interesse por aqui. Abertamente, um dos executivos flagrados dizia que a consultoria estava a caminho do Brasil.

Em outubro de 2017, a Cambridge Analytica estabeleceu parceria formal no Brasil. O marqueteiro baiano André Torreta anunciou o nascimento da Cambridge Analytica Ponte, que unia a CA britânica à Ponte Estratégia, a agência de marketing político de Torreta.

No ano passado, o marqueteiro brasileiro falou abertamente à edição brasileira do jornal espanhol El País. Na ocasião, havia orgulho quanto às ferramentas da CA de construção de perfis de eleitores e criação de campanhas customizadas. É provável que o próprio sócio brasileiro desconhecesse os métodos de coleta de dados revelados na última semana. E, para deixar claro, em função da descoberta integral da forma como a Cambridge Analytica trabalhava, André Torreta se comunicou com os veículos de imprensa para anunciar que a parceria entre a Ponte Estratégia e a CA havia sido desfeita.

E quanto aos planos da CA no Brasil durante o processo eleitoral? Também serão suspensos ou, como a reportagem do Channel 4 revela, a empresa atuará nas sombras com contratos terceirizados e empresas fictícias? E, se isso acontecer, quem será sua contratante?

O fundador da CA, Robert Mercer, é um entusiasta e financiador de movimentos de extrema-direita e supremacia branca. Foi Mercer quem ajudou a reerguer o Breitbart News, o site da nova extrema-direita americana. Steven Bannon, ex-estrategista chefe da Casa Branca e ex-vice-presidente da CA, assumiu a chefia do Breitbart News depois que a família Mercer passou a financiar o site.

No Brasil, as fake news ganharam força durante o processo de impeachment. Mas não há um movimento de extrema-direita notório, apesar de novos candidatos interessados em ocupar este nicho de mercado. Com a direita de roupa nova em todo o mundo – e, como escrevi em meu último texto, obtendo resultados cada vez mais significativos –, este cenário está para mudar. Por aqui, a possibilidade de ocupação desta lacuna atende pelo nome de Movimento Brasil Livre (MBL).

Em outubro de 2017, o jornalista da Piauí Bruno Abbud conseguiu acesso a conversas de um grupo de Whatsapp chamado MBL Mercado – dedicado a unir membros do movimento e executivos do mercado financeiro. A estratégia seria apresentar as pautas dos executivos no mundo político em troca de financiamento do MBL. Pelas conversas, o jogo brasileiro ainda é muito tímido quando comparado a países onde a nova direita está estabelecida e conta com amplos recursos financeiros, casos de Europa e EUA.

No entanto, as conversas deixam claro que a garotada do MBL considera políticos tradicionais do PSDB como velhos e ultrapassados. Esta análise interna ocorre justamente porque esses jovens querem a construção de um novo cenário mais à direita. Em certos momentos, membros do MBL chegam a classificar certos nomes do partido como de esquerda, caso do senador José Serra, por exemplo.

O MBL se consolida como movimento abertamente de direita que não se envergonha de defender o livre mercado, a redução do papel do Estado na economia e nas políticas sociais. Quer ser a manifestação brasileira de correntes políticas europeias e da direita reformada americana. Não quer ser o partido Republicano tradicional, mas sua ala mais conservadora e voraz, como o próprio presidente Trump.

E o que tudo isso tem a ver com a Cambridge Analytica? Da mesma maneira como a “consultoria” política britânica, o MBL ganhou força e venceu campanhas graças às redes sociais. Assim como a CA, o MBL cresce a partir de jornadas que trabalham com o medo de parte da população.

De acordo com estudo do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo, o site Ceticismo Político e o MBL foram os dois principais compartilhadores do grande volume de notícias falsas que circularam em grupos de Whatsapp em todo o país na sequência da execução da vereadora Marielle Franco.

Questionado, o MBL disse apenas que “compartilha o que bem entende e prefere acreditar na mídia independente”.

A resposta do movimento me faz retornar à abertura deste texto; num ambiente de extrema precariedade educacional, o MBL se sente plenamente à vontade para amenizar a divulgação de mentiras e difamação classificando-as como “mídia independente”.

Para deixar claro, não há como afirmar que a CA irá mesmo se envolver na campanha eleitoral brasileira. Mas há hoje no país um terreno fértil para a atuação da “consultoria”. Não apenas existe um grupo local com afinidade à nova direita mundial – inclusive desqualificando os partidos de direita e centro-direita brasileiros – , mas que também manipula com desenvoltura bancos de dados e faz uso de compartilhamento de notícias falsas.

Some-se a tudo isso um país muito polarizado, violento e hiperconectado em redes sociais. A maior parte de sua população é incapacitada para interpretar textos mais complexos – e certamente não detém ferramentas para distinguir jornalismo sério de boataria e propaganda disfarçada.

Ao longo deste ano, a população estará no alvo – pode não ser objeto da atuação da Cambridge Analytica, mas já há muita gente hábil que conhece e replica seus métodos de trabalho por aqui.