A resposta ocidental ao envenenamento do ex-espião russo

29 de Março de 2018
Por Henry Galsky Depois do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal e de sua filha Yulia caírem definitivamente na conta de Vladimir Putin, parte considerável dos países ocidentais optou por tomar uma atitude que mostra unidade – algo raro quando se trata de confrontar e isolar um país estrangeiro, especialmente no caso da Rússia. Há um movimento crescente de expulsão de diplomatas do país. 

No dia 14, a primeira-ministra britânica, Theresa May, mandou 23 membros do corpo diplomático da Rússia alocados no Reino Unido de volta para casa. Na sequência, ela e os líderes de EUA, França e Alemanha fizeram uma declaração condenatória e igualmente rara em conjunto. E eis que há uma escalada na reação internacional; já são quase 140 russos expulsos de uma variedade de países, incluindo EUA, 17 países-membros da União Europeia, Canadá, Albânia, Austrália e outros. 

Havia na administração russa uma espécie de conforto e sensação de segurança. A guerra na Geórgia, em 2008, a interferência nas eleições americanas de 2016, a adesão ao governo de Bashar al-Assad na Síria – a proteção ao ditador local mesmo depois de dois ataques com armamento químico contra a própria população civil – e a construção de uma nova rede de alianças práticas no Oriente Médio encheram os russos de confiança. 

Os europeus podiam reclamar quanto quisessem, o FBI e a CIA podiam investigar a interferência nas eleições. Nada disso alterava a realidade dos fatos. Escrevi sobre isso no texto de 19 de março, logo na sequência de mais uma vitória eleitoral e incontestável de Putin, consolidando-se em mais um mandato e distribuindo seus espiões pelo mundo. Sem causar grande comoção ou reações. 

Na ocasião, reproduzi o raciocínio de Anne Applebaum, colunista do Washington Post:

“A verdadeira questão para a Grã-Bretanha – bem como para a França, a Alemanha e os Estados Unidos – é se estamos dispostos a acabar completamente com a relação financeira. Poderíamos proibir os paraísos fiscais nas Ilhas Virgens, bem como em Delaware e Nevada; poderíamos tornar impossível comprar propriedade anonimamente; poderíamos banir empresas russas com origens duvidosas de nossas bolsas de valores”.

Não me parece que este é o caminho. Por enquanto. Mas o Kremlin está experimentando um tipo de reação incomum. E que pode ter consequências reais sobre a forma como atua no exterior. A rede de relacionamento que a Rússia criou com partidos e movimentos de extrema-direita europeia e grupos de supremacia branca nos EUA, por exemplo, pode ser abalada. 

Se a escalada diplomática seguir adiante, as alianças construídas pelos agentes russos estabelecidos em território estrangeiro correm perigo. 

E mais: o protagonismo de Moscou e de seus robôs nos processos eleitorais internacionais – de modo a influenciar diretamente esses países – pode e deverá ser alvo de novas medidas regulatórias. A ideia de que a internet é um território livre de modo permanente é ilusória. Principalmente quando os processos democráticos de grandes potências estão ameaçados. 

A questão é entender como Putin irá reagir para além da formalidade de dar o troco expulsando diplomatas internacionais. 

Uma das possibilidades está no Oriente Médio. Depois que fincou bandeira na região – e se tornou a liderança local de fato –, Putin tem um poderoso time de aliados no bolso. Irã, Síria, Turquia, Hezbollah, Hamas e todas as milícias xiitas afiliadas a Teerã estão à disposição. Não me espantaria se o presidente russo optasse por fazer uso dessas alianças. 

Permitir que o Irã, por exemplo, se aproxime ainda mais da fronteira de Israel levando o estado Judeu a reagir é uma arma poderosa de Putin. Rapidamente, este conflito tem potencial para causar ainda mais instabilidade numa região historicamente instável. O presidente russo pode usar a velha estratégia de criar um grande problema de forma a aparecer como o único capaz de resolvê-lo. 

Lembrando sempre que estamos tratando de uma liderança internacional que silenciou a oposição no país e anda em busca de vingança de ex-agentes aposentados no exterior. E, vale também lembrar, é o ponto de apoio de um ditador do Oriente Médio que não pensou duas vezes antes de atacar a própria população civil com armamento químico.