Protestos em Gaza e a nova-velha estratégia do Hamas

02 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Foto: passagem de Kerem Shalom na fronteira entre Israel e Gaza

A realização dos protestos em massa na fronteira de Gaza com Israel é considerada um caso de sucesso pelos proprietários do território costeiro palestino, o grupo terrorista Hamas. Depois de três confrontos diretos travados com os israelenses quase em sequência (2009, 2012 e 2014), seus membros decidiram investir numa nova forma de estratégia. Aliás, uma estratégia que deu certo em todas as oportunidades de guerra aberta com Israel e que passou a representar o caminho de sucesso internacional do grupo.

Nos confrontos diretos com Israel, a estratégia de provocar dano à própria população comum palestina em troca do isolamento internacional israelense tem funcionado. O lançamento de mísseis a partir de escolas, hospitais e áreas residenciais palestinas é uma fórmula de uso contínuo ao longo do século 21. O revide israelense – e a consequente morte de civis palestinos – causa comoção internacional, condenações de chefes de estado e dos organismos multilaterais, como a ONU.

Desta vez, o Hamas se apropriou de uma manifestação anual na fronteira de Gaza com Israel para promover a chamada “Grande Marcha do Retorno”. Ao contrário de eventos similares em anos anteriores, agora houve adesão significativa. Mais de 30 mil pessoas se posicionaram nas proximidades da cerca que separa Gaza de Israel.

A partir deste ponto, há um confronto violento que envolve não apenas as pessoas comuns, o Hamas e as Forças de Defesa de Israel (FDI), mas a disputa pela hegemonia de narrativa ainda em curso nas redes sociais e na imprensa tradicional.

O discurso oficial do Hamas – com rápida adesão pelos países árabes e por parte da imprensa internacional – estabelece que manifestantes que protestavam contra os israelenses de maneira pacífica foram alvejados pelas FDI.

Para Israel, o pacifismo da marcha era uma armação e as FDI alvejaram pontualmente os principais instigadores de atos violentos, muitos deles membros do Hamas e de sua ala militar, as brigadas Izz ad-Din al-Qassam.

Isolado no mundo árabe – em virtude de sua associação ao eixo xiita regional não-árabe – , o Hamas rapidamente obteve sucesso a partir da ação. Depois de praticamente quatro anos fora da pauta principal das discussões, Gaza retomou seu protagonismo perdido.

No mesmo dia, a oposição interna ao Hamas (a Autoridade Palestina, entidade reconhecida internacionalmente como a legítima representante dos palestinos) conseguiu realizar sessão no Conselho de Segurança da ONU de forma a condenar Israel.

Israel argumenta que protege a sua população. E a cerca que separa o território israelense de Gaza é a barreira que separa a população de Israel do próprio Hamas, entidade que controla a faixa costeira desde 2007 e cujo objetivo abertamente não é a construção de um estado palestino que possa conviver pacificamente ao lado de Israel, mas a destruição do estado judeu.

Durante a manifestação na fronteira, o chefe do Hamas, Yahya Sinwar, fez questão de repetir os objetivos do grupo:

“A Marcha do Retorno vai continuar até removermos esta fronteira temporária. Nosso povo não pode desistir de uma polegada sequer da terra da Palestina. Vamos comer seus fígados (dos israelenses)”, disse.

Quando Yahya Sinwar faz uso do termo Palestina ele não se refere à Gaza e Cisjordânia (territórios que os acordos internacionais assinados – inclusive pela Autoridade Palestina – deixam claro que servirão de base para a criação de um futuro estado palestino). Sinwar se refere ao território integral entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – Israel, portanto.

A própria ideia de organizar uma “Marcha de Retorno” parte do princípio de inexistência de Israel. É pouco provável que uma manifestação criada a partir desta lógica tenha como propósito final a construção de um ambiente pacífico ou que minimamente sustente a ideia de dois estados para dois povos – a base de todos os acordos assinados entre Israel e a Autoridade Palestina desde os Acordos de Oslo de 1993.

Há algumas ideias do Hamas para fazer uso deste novo-velho modo de operação: a reocupação do espaço de mídia perdido nos últimos quatro anos – especialmente em função do agravamento da Guerra Civil Síria e das demais disputas entre xiitas e sunitas em todo o Oriente Médio.

A incapacidade de sucesso da coalizão palestina entre o próprio Hamas e o Fatah (grupo de sustentação da Autoridade Palestina) e da unificação de discursos, projetos e práticas entre as duas alas rivais.

A nova diretriz internacional e unilateral de Donald Trump, que “pula” a discussão sobre temas complexos, superando-os com o estabelecimento de fatos no solo. No caso do conflito entre palestinos e israelenses, esta lógica pode ser aplicada ao reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel e à transferência da embaixada americana para a cidade. Apesar dos protestos de países árabes, a decisão da Casa Branca não encontrou pontos de resistência reais.

Mesmo a partir dos protestos, a Autoridade Palestina não conseguiu reverter a decisão de Trump. O Hamas percebe esta realidade como oportunidade. Ao contrário da AP, o Hamas produz seus mártires em confrontos com Israel de forma a alçar a luta palestina novamente ao centro das discussões internacionais.

A promessa do grupo é que este movimento representa apenas o início de uma nova onda de protestos que chegarão ao seu ponto máximo no dia 15 de maio, o dia seguinte à declaração de independência de Israel – data que os palestinos chamam de Nakba, a catástrofe. E justamente neste ano Israel celebra seus 70 anos de independência. E com a promessa da transferência da embaixada americana para Jerusalém.

Há alguns pontos que serão respondidos até maio: o Hamas está disposto a declarar e manter uma nova guerra com Israel (o confronto anterior, em 2014, durou 50 dias e custou a vida de 2.100 palestinos)? A ideia é que os protestos se avolumem de modo a provocar uma nova intifada? E se o propósito do Hamas for mesmo o de iniciar uma nova guerra com Israel, haverá desta vez a participação direta do Irã, cada vez mais assentado e fortalecido na Síria?

Tudo isso está em jogo a partir dos novos acontecimentos planejados pelo Hamas. Eles podem se esgotar em si, mas também podem significar a faísca de um incêndio de grandes proporções.