A história recente do Hamas e suas consequências no confronto atual

09 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Se ao longo deste século o Hamas iniciou três conflitos com Israel, os acontecimentos na fronteira entre a Faixa de Gaza e o estado judeu mostram que há uma mudança de percepção interna na alta-cúpula do grupo palestino. A ideia de burlar a cerca que separa os dois territórios está sendo colocada em prática pelo Hamas em função de suas derrotas. Para Israel, este é o momento da pós-vitória. Como resultado da experiência de três conflitos (2008/09, 2012 e 2014), os israelenses conseguiram neutralizar as ações do grupo terrorista palestino.

Os confrontos até agora obedeceram a uma sequência relativamente repetitiva de eventos: o Hamas lançava mísseis sobre Israel, Israel revidava, os mísseis continuavam a ser lançados, Israel aprofundava a ofensiva invadindo Gaza. Guerra aberta, número alto de civis mortos – especialmente palestinos –, negociações indiretas de bastidores e, por fim, cessar-fogo. Até que o novo ciclo se iniciasse novamente tempos depois.

Esta ordem improdutiva mantém a situação de impasse no conflito israelense-palestino. Ela representa de certa maneira uma resposta que o Hamas ainda não consegue apresentar para justificar ou alterar sua razão de existência. Preciso retornar um pouco no tempo, especialmente até 11 de novembro de 2004, a data de morte de Yasser Arafat.

Arafat não foi apenas o presidente palestino até morrer, mas o fundador da ideia de uma nação palestina. Graças a ele, esta demanda passou a protagonizar os principais fóruns internacionais.

Em 1993, Arafat assinou os Acordos de Oslo com Israel e se reinventou como figura política depois de décadas de ações terroristas. O caminho da governança transformou o projeto palestino em Autoridade Palestina (AP), a entidade que, graças aos acordos, passou a responder e a centralizar a vida política palestina cujo propósito final era e continua a ser a criação de um estado independente em Gaza e na Cisjordânia capaz de conviver pacificamente ao lado de Israel.

A ausência de Arafat desarticulou os palestinos. Em 2006, as eleições legislativas deram a vitória justamente ao Hamas, grupo de oposição ao Fatah – o movimento de sustentação de Arafat fundado por ele e aliados no final dos anos 1950 – e naturalmente também de oposição à AP. Ao mesmo tempo, as potências internacionais e a ONU impuseram condições para aceitar o novo governo formado majoritariamente pelo Hamas: renunciar ao uso da violência, reconhecer o estado de Israel e se comprometer com os acordos previamente assinados. Entre declarações contraditórias por parte da cúpula do grupo e ameaças israelenses, o impasse persistiu.

O Hamas não se deu por satisfeito apenas em derrotar o Fatah nas urnas. Numa guerra interna, expulsou os membros do Fatah da Faixa de Gaza. O argumento do grupo de luta contra a ocupação israelense estava fragilizado. Um ano antes, em 2005, Israel havia desmantelado todos os assentamentos judaicos em Gaza. Não restava nenhum soldado israelense no território. A soberania foi repassada integralmente à Autoridade Palestina. Naquele momento, havia expectativa de uma mudança no quadro do conflito. Pela primeira vez, os palestinos tinham a oportunidade de governar toda a extensão da faixa costeira.

No entanto, o cenário mudou rapidamente. Depois de expulsar a AP, o Hamas também cancelou todos os acordos de passagem de fronteira com Israel. Assim nascia o bloqueio a Gaza. Ainda em 2006, o Hamas atuou contra Israel durante a Segunda Guerra do Líbano, cuja frente de batalha era o norte do território israelense e o sul do território libanês. Graças a uma rede de túneis até então desconhecida, membros do grupo entraram no território israelense e sequestraram o soldado Gilad Shalit – cinco anos depois, o soldado seria libertado em troca de 1.027 prisioneiros palestinos, reforçando ainda mais a posição do grupo diante da sociedade palestina.

Este momento marca a reafirmação do Hamas como entidade terrorista. Ao contrário do que ocorreu com outras facções e grupos armados em diversas partes do mundo (inclusive com a figura central da narrativa palestina, Yasser Arafat), a governança não suavizou suas posições. Havia em 2006/2007 a possibilidade real de transformação. O Hamas poderia ter investido todo o orçamento recebido na construção de uma realidade alternativa em Gaza.Poderia ter adotado uma posição mais pragmática. Poderia, mas não fez.

Os anos seguintes marcam um aprofundamento do discurso que isolou não apenas o grupo, mas os quase 2 milhões de palestinos que vivem em Gaza. Três conflitos depois – o momento atual – moldaram o cenário atual. O Hamas se associou ao eixo xiita – apesar da grande maioria populacional palestina sunita – e se encaixou como parte de um esforço de reconstrução regional capitaneado pelos russos e operado por Irã, Síria, Turquia e Hezbollah.

Ao mesmo tempo, o grupo hoje se depara com uma realidade que supera suas possibilidades militares de momento: os mísseis lançados sobre Israel são interceptados pelo escudo antimísseis conhecido como Domo de Ferro, a fronteira tem se mostrado impenetrável, a rede subterrânea de túneis foi descoberta. Nem Israel, nem o Egito dão mostras de disponibilidade em levantar o bloqueio ao território. Há um ciclo terrorismo-bloqueio-terrorismo sem perspectivas de encerramento.

É neste cenário que nascem os protestos orquestrados na fronteira. O raciocínio do grupo é até bastante simples: se a guerra real não pode ser vencida pelos meios práticos, que a guerra de mídia seja capaz de isolar os israelenses. Ao mesmo tempo, o Hamas não volta atrás em sua carta de fundação. A ideia de destruir Israel é reafirmada.

Em maio de 2017, um novo documento político parecia aceitar a ideia real de um estado palestino estabelecido em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Mas o mesmo documento deixava claro o compromisso com a violência e a criação de um estado palestino no território integral entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo – como escrevi no último texto, este é o território israelense.

E esta é a contradição do grupo. A dicotomia e a incapacidade – e a falta de interesse – de se reinventar como organização pragmática está levando milhares de pessoas à fronteira com Israel. E criando a ilusão de que elas poderão destruir a fronteira e marchar até Jerusalém. Se o objetivo é inalcançável, o Hamas sabe que, pelo menos, reforça suas pequenas vitórias na guerra da mídia e na disputa interna contra a AP. Mesmo que isso custe a vida dos palestinos.