Nova escalada de tensões no Oriente Médio envolve Rússia, EUA, Israel e Irã

11 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Há uma possibilidade de correlação entre o ataque com armamento químico contra os próprios civis realizado aparentemente pelo governo de Bashar al-Assad na Síria e o ataque aéreo supostamente realizado por Israel contra a base aérea Tiyas (conhecida como T-4) localizada entre as cidades de Homs e Palmira, em território sírio. 

Apenas para deixar claro, na medida em que a imprensa internacional tem falhado nesta comunicação, houve dois ataques: o primeiro (atribuído ao governo sírio), que vem causando indignação em todo o mundo, foi mais uma ofensiva com gás tóxico contra rebeldes e que vitimou civis. O segundo (atribuído a Israel) se trata de um ataque a uma base operada por militares iranianos na Síria. 

Os EUA sabiam da ação de Israel contra a base militar. De acordo com fontes do governo americano ouvidas pela imprensa internacional, Israel teria feito a comunicação antes de levar a ofensiva adiante. Mesmo que o ataque sírio com armamento químico não tenha sido o fator central da tomada de decisão israelense, a data escolhida pode querer deixar claro que se trata de uma resposta de Israel. 

Tal sincronia pode estar relacionada também a uma conversa tensa entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente americano, Donald Trump. Apesar da harmonia entre as lideranças, há relatos de que, por razões óbvias, Bibi estaria desapontado com a eventual retirada americana da Síria. 

Por mais que esteja evidente que os russos são os novos patrões do Oriente Médio, a saída em definitivo dos EUA deixa os caminhos ainda mais livres a Bashar al-Assad e – de forma ainda mais grave para os israelenses – ao Irã. Se a ideia do líder israelense é deixar claro que o país não irá tolerar a presença avançada iraniana na fronteira norte de Israel, o ataque poderia ter esta mensagem como um de seus propósitos. 

E aqui vale uma explicação; este é um período decisivo para a região. Não apenas pelos acontecimentos na Síria, mas também em função das ambições iranianas e da percepção de Israel sobre elas. 

Existe a possibilidade real de que no próximo mês de maio o presidente Donald Trump anuncie a retirada americana oficial do acordo nuclear assinado entre as potências internacionais e o Irã. Se o compromisso de fato ruir, é possível que Teerã adote posturas mais assertivas. E considerando a presença de tropas do país na Síria, o resultado desta equação fica claro. 

Como de costume, Israel não comenta nem admite oficialmente ter atacado a base militar em território sírio. A política do país é de reduzir ao máximo as tentativas de transferência de armamento a seus inimigos. As estimativas apontam que, desde 2012, o país já tenha alvejado mais de cem comboios, a maioria deles transportando arsenal militar e armamento à milícia xiita libanesa Hezbollah. 

Neste episódio específico da empreitada israelense contra a base militar operada majoritariamente pelo Irã a novidade ficou por conta das declarações oficiais russas. Havia um acerto de bastidores entre Moscou e Jerusalém sobre incursões na Síria de forma a evitar embates entre as forças russa e israelense. As ações de Israel no território não geravam muitos comentários das autoridades da Rússia. Desta vez, no entanto, a situação mudou a ponto de os russos terem criticado os israelenses publicamente. A crítica não veio do baixo escalão, mas do próprio ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov. 

Talvez Israel tenha coordenado todos os elementos sobre os quais escrevi e decidido agir neste momento. Para o estado judeu, não é ruim que o ataque seja entendido como resposta ao novo uso de armamento químico pela Síria contra a população civil. De qualquer maneira, é importante ter em mente o primeiro episódio do embate direto entre Israel e Irã. 

Em 10 de fevereiro deste ano, o confronto seguiu a seguinte ordem sequencial: de acordo com a posição israelense, o Irã infiltrou um drone sobre a região norte do país. Para provar a acusação, as autoridades israelenses permitiram que o drone voasse por pouco mais de um minuto antes de ser abatido. Logo depois, caças israelenses atacaram esta mesma base T4 na Síria. 

Entre os militares iranianos mortos nesta ação mais recente há um oficial sênior do programa de desenvolvimento de drones do país. Está claro que Israel prosseguiu com investigações sobre a missão do primeiro drone iraniano lançado sobre seu território, em 10 de fevereiro. E está claro que considera que o Irã tem projetos que os israelenses julgam importante interromper. Basta ligar os acontecimentos e, de maneira não ocasional, os dois ataques de Israel à mesma base militar. Muito possivelmente, a intenção também seja a de deixar claro os limites que os russos devem estabelecer à atuação de seus aliados na Síria. Esta me parece ser a posição mais ampla de Israel. 

Com as ameaças americanas explícitas ao governo sírio e às autoridades russas, fica evidente a gravidade da situação e a possibilidade real de alteração estrutural do cenário atual. Inclusive com eventuais confrontos diretos paralelos entre russos e americanos e iranianos (somados a Hezbollah e milícias xiitas) e israelenses. 

Rússia e Irã prometeram respostas a Israel. Talvez os russos permitam a seus aliados uma contraofensiva. Que poderá ser realizada em maior ou menor escala. Talvez ela ocorra não por meio dos iranianos diretamente, mas a partir do Hezbollah no Líbano ou mesmo de milícias xiitas pulverizadas no lado sírio das Colinas de Golan. De qualquer maneira, este é um momento de grandes movimentações estratégicas e de política de bastidores.