EUA, França e Grã-Bretanha punem o regime sírio pelo uso de armas químicas

14 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Há diferenças significativas entre a ação conduzida pelos EUA, França e Grã-Bretanha nesta sexta-feira e o ataque pontual lançado pelos americanos no ano passado. O ponto mais óbvio é justamente a realização de uma ofensiva em conjunto, uma evidente preocupação do presidente Donald Trump em mostrar não apenas sua capacidade de liderança – muito contestada, especialmente em assuntos internacionais –, mas também do interesse em decidir e atuar de maneira multilateral. Ao longo da semana, foram os franceses que fizeram questão de afirmar que tinham provas concretas de que o regime de Bashar al-Assad de fato teria feito uso uma vez mais de armamento químico contra a própria população civil. 

No ano passado o ataque conduzido apenas pelos EUA pode ser considerado uma resposta pontual ao uso de armas químicas por Bashar al-Assad. Naquele momento, parecia tão somente uma tentativa de Trump de se diferenciar de seu antecessor e eterno rival (pelo menos sob o ponto de vista do presidente atual) Barack Obama. Por mais que a ação naquele momento tenha representado uma novidade em relação ao governo americano anterior, não passou disso, basicamente. A ordem política e militar na Síria não se alterou; a Rússia permaneceu no comando do novo Oriente Médio e, mais importante, Bashar al-Assad continuou a ser o presidente da Síria. 

O ataque pontual americano realizado no ano passado não mudou a realidade do conflito. A tal ponto que, se a versão francesa, americana e britânica estiver correta, Assad teria se sentido confortável o bastante para novamente fazer uso de armamento químico contra a população civil. 

É possível que tudo isso – o cenário de permanência e a sensação de impunidade usufruída pelo regime de Assad – tenha motivado a mudança de postura de Trump. E faço esta referência porque, de acordo com as declarações oficiais do general americano Jospeh Dunford e do secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, os alvos dos ataques dos três aliados ocidentais são as instalações e centros de pesquisas relacionados diretamente ao desenvolvimento de armas químicas de Bashar al-Assad. 

Já se sabe neste momento que há coordenação com Moscou para evitar que alvos russos sejam atingidos. E esta é uma informação das mais relevantes. Por mais que Vladimir Putin tenha dado cobertura a seu aliado sírio a ponto de sustentá-lo no cargo, existe um esforço das potências para evitar confrontos na Síria. 

A dúvida inicial quanto às intenções da Rússia de responder a ataques contra o território sírio parece estar respondida pelo menos por enquanto. Como venho escrevendo desde que os russos entraram na Síria, seu foco de atuação é a manutenção das próprias instalações militares e interesses regionais, sustentando Assad na presidência e evitando o esfacelamento do país diante de rebeldes e do Estado Islâmico. A partir do momento em que russos e sírios viraram o jogo, a vitória estava encaminhada. 

A Rússia agora parece estar disposta a fazer certas concessões ao Ocidente, desde que suas conquistas não sejam perdidas durante este processo. Muito embora não haja garantias de que uma ofensiva ocidental prolongada não reverteria todo o trabalho de varredura executado desde 2015 por russos e sírios, inclusive com o estabelecimento de zonas de exclusão no país. 

Ao longo desta última semana, é provável que oficiais russos e americanos tenham trocado informações e alcançado alguma forma de acordo. A ofensiva atual pode adquirir formato específico, configurando uma espécie de meio do caminho entre o ataque pontual e ineficaz realizado no ano passado e uma nova guerra aberta no Oriente Médio. 

Os aliados ocidentais podem trabalhar com ondas de ataques contra alvos específicos – como ocorreu nesta sexta – deixando explícito que pretendem acabar com todas as instalações de desenvolvimento de armas químicas. A Rússia parece ter acatado a este formato. Resta saber se os russos conseguiram transmitir este raciocínio aos seus próprios aliados e se eles irão se submeter à determinação de Putin. 

Se Assad optar por resistir, EUA, França e Grã-Bretanha têm a capacidade militar de acabar com a força aérea e baterias antiaéreas da Síria. Se os demais pilares de sustentação do presidente sírio partirem para o contra-ataque, aí sim teremos um cenário de guerra aberta. A Rússia provavelmente usou este tempo de uma semana desde o ataque com armas químicas por Assad para ordenar a Hezbollah e Irã a não se envolverem militarmente. 

Sob o ponto de vista político, Donald Trump nunca esteve tão próximo de conquistar uma vitória importante; pode tornar prática a ameaça jamais concretizada pelo antecessor Barack Obama quando Assad usou armamento químico pela primeira vez em 2013. Se conseguir acabar com todos os centros de pesquisa e desenvolvimento químico da Síria, terá obtido uma conquista internacional inquestionável. 

A posição britânica também está ligada às armas químicas; em março deste ano, um ex-agente russo e sua filha sofreram um ataque com envenenamento em solo britânico. Ao participar da ação, a primeira-ministra Theresa May responde aos russos, aliados de Bashar al-Assad e suspeitos do ataque na Grã-Bretanha. 

Para Emmanuel Macron, o presidente francês, responder a ataques químicos na Síria é cumprir uma promessa de campanha. Para os três países ocidentais é também uma reafirmação do compromisso e da força da Otan, que, apesar das discussões internas e do grande questionamento de repasses financeiros conduzido por Donald Trump, volta novamente a demonstrar seu poder de fogo e ação conjunta.