Na Síria, estão em jogo os ganhos do Irã e a máquina de propaganda russa

17 de Abril de 2018
Por Henry Galsky O ataque à Síria coordenado pelos EUA tem sucesso entre os atores ocidentais e mesmo entre opositores explícitos a Donald Trump – como o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan – porque parece limitado a um ponto consensual e ao mesmo tempo muito superficial: o uso de armamento químico em confrontos e, ainda mais grave, contra a própria população civil.

Os elogios e manifestações de apoio de lideranças internacionais se encerram justamente nesta última linha de discussão. Depois disso, não há mais consenso. Se a ideia é estabelecer este limite – a punição ao uso de armamento químico –, a operação obtém sucesso.

Para além deste aspecto, não há mais denominadores comuns em larga escala. Há muitas perguntas em jogo: Assad permanece presidente da Síria, o Irã e a Rússia podem transformar o país em base de influência e ações regionais, os iranianos podem seguir com o projeto de hegemonia regional e conexão contígua entre seu território e o Mediterrâneo, a Turquia irá permitir a criação de um estado curdo no norte na Síria?

Todas essas questões abrem outras tantas linhas de raciocínio e argumentação que se multiplicam em novos dilemas internacionais e discordâncias excludentes numa região já instável. Aliás, as dúvidas descritas acima representam exatamente algumas das muitas consequências geopolíticas da guerra civil síria – isso sem falar dos dilemas humanitários que envolvem, por exemplo, o destino dos sírios exilados na Europa e nos campos de refugiados do Oriente Médio.

Por enquanto, de todas as possibilidades que passaram a existir a partir da operação ocidental, são os iranianos quem devem estar se perguntando como será o futuro a partir de agora.

Depois de sete anos investindo no regime de Bashar al-Assad com algo entre 8 e 12 bilhões de dólares por ano (transferência de armamento para as milícias xiitas menores, para o Hezbollah e a criação de forças especiais para lutar na Síria), graças ao ataque com armas químicas do dia 7 de abril, Teerã passou a enfrentar crise existencial: deixou o estado de absoluta confiança no sucesso de seu plano regional e passou para a completa dúvida quanto a suas possibilidades.

Como já escrevi por aqui, o acordo sobre o programa nuclear do Irã está por um fio. Se a administração em Washington já não nutria nenhuma simpatia por esta herança de Obama, a ascensão de opositores explícitos ao tratado a cargos de primeiro escalão no governo Trump deixa a situação ainda mais complicada aos iranianos.

Quando menciono os opositores ao acordo, refiro-me especificamente a Mike Pompeo, ex-diretor da CIA escolhido por Trump para ser o novo secretário de Estado, e John Bolton, assessor de segurança nacional, o terceiro a ocupar o cargo na administração Trump.

Com ainda mais “falcões” a seu redor, o presidente americano pode incluir no pacote da ação na Síria danos à infraestrutura iraniana construída no país. Se isso acontecer, os iranianos podem se sentir tentados a reagir, muito embora este tampouco seja o interesse do presidente russo, Vladimir Putin. O Irã deve aos russos não apenas obediência, mas a possibilidade de construir instalações na Síria.

E aqui reside a chave da situação. Putin pode sacrificar conquistas do aliado Irã em nome de não elevar ainda mais as tensões. É quase certo que uma resposta iraniana – ou do Hezbollah – ocorreria sobre Israel. Se os EUA permanecerem presentes na Síria (menos em razão de seus poucos 2 mil soldados em solo, mas em função da coalizão que realizou os ataques aéreos), podem se decidir por causar ainda mais perdas materiais ao Irã.

Para os russos, é melhor impedir esta escalada. Há pouca gente se dando conta disso, mas o foco de Putin neste momento é resolver a situação na Síria – ou continuar na trilha da vitória com Assad como presidente e manter as instalações militares russas resguardadas – e partir para a Copa do Mundo. O país sedia o segundo maior evento esportivo do planeta em junho, investiu cerca de R$ 40 bilhões na construção de estádios grandiosos (o Brasil gastou R$ 25,5 bilhões) e quer usar o futebol para mostrar um país moderno e próspero na maior jogada de propaganda da gestão Putin.

Imaginem o estrago que seria sediar a Copa enquanto luta uma guerra no Oriente Médio? Imaginem se França e Inglaterra – duas potências da Otan, do futebol e atores da coalizão de Trump – decidissem boicotar o show de Putin na Copa? 

Não se podem prever acontecimentos de maneira definitiva. E a política tem uma história de grandes reviravoltas. Mas me parece que, para salvar sua Copa do Mundo, Putin estaria disposto a continuar com algumas concessões. E entre elas pode estar incluída parte da infraestrutura e das conquistas geopolíticas obtidas pelo Irã na Síria.