A guerra iminente entre Irã e Israel

19 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Ao contrário do que se pode imaginar, são reduzidas as possibilidades de que os ataques realizados por EUA, França e Grã-Bretanha na Síria iniciem um conflito em larga escala. No entanto, o encaminhamento da vitória russa e de seus aliados no território sírio não significam o apaziguamento definitivo da região, muito pelo contrário. Isso porque a manutenção de Bashar al-Assad na presidência do país representa uma grande oportunidade também para o Irã. 

Hoje, os objetivos de expansão e hegemonia regional iraniana estão em curva de ascensão. Além da construção de bases e centros militares na Síria, o país participa da cúpula de poder, diretamente ou por meio de satélites, no Iêmen, no Líbano e no Iraque. O projeto de estender a área de atuação do regime xiita entre o território iraniano e o Mar Mediterrâneo é muito bem-sucedido. 

Mas o sucesso da República Islâmica representa ameaça direta a Israel. O confronto retórico entre israelenses e iranianos também é ascendente. Em 10 de fevereiro deste ano, os iranianos supostamente invadiram o espaço aéreo de Israel com um drone, um veículo aéreo não-tripulado e operado remotamente. Israel retaliou diretamente à base T4 na Síria de onde se imagina que o drone tenha sido lançado. 

Nesta semana, Israel atacou esta mesma base novamente, mas o assunto acabou não recebendo a devida atenção da imprensa em função, claro, da ofensiva da coalizão ocidental contra os centros de pesquisa e desenvolvimento de armas químicas de Bashar al-Assad. 

O Wall Street Journal inclusive publicou informação de que a base T4 foi atacada não apenas para interromper o programa de drones iraniano, mas tinha como alvo também – e principalmente – um sistema de defesa aéreo avançado alocado pelo Irã na instalação militar. 

De acordo com o jornal, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, teria informado sobre a instalação ao presidente americano, Donald Trump. O objetivo do ataque seria impedir que as novas baterias antiaéreas pudessem ser usadas contra caças israelenses em ação contra alvos em território sírio. 

Este conflito em potencial entre iranianos e israelenses vêm se desenvolvendo lentamente há mais de 13 anos. Primeiro por meio do principal satélite do Irã – a milícia xiita Hezbollah contra o qual Israel travou uma guerra, em 2006, que durou 34 dias. Posteriormente, o desenvolvimento do programa nuclear iraniano ganhou mais força ao mesmo tempo em que o então presidente do país, Mahmoud Ahmadinejad, pregava a destruição do estado judeu a partir da própria tribuna da ONU. 

Estamos chegando no momento decisivo deste conflito entre os países, na medida em que seus propósitos não são apenas opostos, mas excludentes, como já escrevi por aqui em 15 de setembro de 2017

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Como é muito comum em assuntos do Oriente Médio, é preciso voltar um pouco no tempo de forma a analisar o momento atual. 

Em 2000, Israel deixou o sul do Líbano, onde, por 22 anos, controlou cerca de 18km de extensão territorial. Depois de sair do território – muito em razão do grande desgaste que esta ocupação provocava e sob intensa pressão da própria opinião pública interna –, o Hezbollah ganhou força, apropriando-se da região e transformando-a em base de ataques ao norte de Israel. 

Voltando aos dias de hoje, o cenário é diferente. Melhor para os libaneses e iranianos e pior para os israelenses. Os números são conflitantes, mas a estimativa é de que hoje o Hezbollah possua pelo menos 100 mil mísseis apontados para Israel – um arsenal pelo menos 17 vezes superior àquele que o grupo possuía quando enfrentou os israelenses em 2006. 

Este é um problema para Jerusalém, na medida em que não é possível voltar atrás e desfazer o que é considerado um erro de estratégia: a saída do sul do Líbano e a permissão silenciosa para o Hezbollah se apropriar do território. Esta análise é fundamental e guia as decisões do governo de Israel hoje.  

A atenção de Israel na Síria e o enfrentamento com o Irã estão profundamente relacionados às conclusões do parágrafo anterior; é improvável que Israel permita aos iranianos obter na Síria as mesmas vantagens estratégicas alcançadas pelo Hezbollah no sul do Líbano. E, com o posicionamento reduzido dos americanos no jogo do Oriente Médio, os israelenses entenderam que ou dependem da boa vontade dos russos na contenção de seus aliados do eixo xiita ou será preciso agir de forma unilateral. Este é o retrato de momento. 

E o que me leva a crer que o confronto deve se expandir tem relação com uma notícia pouco repercutida no Brasil, mas fundamental para a compreensão do embate atual; de acordo com o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF), Ronen Manelis, o drone abatido por Israel em 10 de fevereiro e supostamente operado pelo Irã não estava em missão de reconhecimento, como os israelenses imaginaram num primeiro momento. Segundo Manelis, a aeronave estava carregada de explosivos. 

É claro que é impossível realizar uma verificação por conta própria, mas a conclusão apresentada pelo oficial israelense seguramente está entre as razões que levaram seu país a novamente atacar a base T4 na Síria, causando a morte de sete oficiais iranianos, dentre eles o coronel Mehdi Dehgan, especialista no programa de desenvolvimento de drones.

Por todas essas razões, a mim me parece claro que estamos chegando a um momento decisivo neste conflito. É possível que Israel opte por um ataque preventivo de forma a surpreender os iranianos e acabar com todas as suas bases estabelecidas na Síria antes que eles possam acionar seus aliados do Hezbollah no sul do Líbano. 


Nota: O colunista Thomas Friedman publicou nesta semana um texto no New York Times chegando a conclusões similares às minhas sobre a rota de colisão entre Irã e Israel na Síria. No entanto, é preciso deixar claro que os artigos são completamente distintos, apesar de ambos usarem informações públicas. No texto acima procurei aprofundar a argumentação com elementos sobre o posicionamento histórico de Israel e da disputa envolvendo israelenses e iranianos ao longo do século 21. Além disso, a escalada retórica e militar entre os dois países - e o encaminhamento da situação para um possível e cada vez mais provável conflito aberto em maior escala - é objeto de análise permanente por aqui ao longo de dez anos.