Europeus correm para salvar as posições de Putin e Trump

24 de Abril de 2018
Por Henry Galsky França, Alemanha e Grã-Bretanha estudam maneiras de evitar uma nova Guerra no Oriente Médio. Como tenho escrito por aqui há algum tempo, a escalada nos discursos e nas atitudes de Irã e Israel evidenciam que, se nada for feito, os dois países podem entrar em confronto direto. A informação de que o drone iraniano que invadiu o espaço aéreo israelense estaria carregado de explosivos é um sinal claro de que o jogo realmente mudou.

Os dois ataques de Israel contra alvos militares do Irã na Síria (a base T4) mostram que Jerusalém não irá aguardar esforços internacionais para proteger o país. Por isso, França, Grã-Bretanha e Alemanha correm para convencer os demais membros da União Europeia a aplicarem novas sanções a Teerã. A justificativa pública para a aplicação dessas medidas é justamente o programa balístico do Irã e a transferência de tecnologia de mísseis da República Islâmica para seus aliados no Iêmen (o grupo xiita houthi) e Líbano (o grupo terrorista xiita Hezbollah).

Os europeus entenderam que estão no meio de um momento histórico fundamental e decisivo. Donald Trump deu o prazo até o próximo dia 12 de maio para que se “conserte” o acordo sobre o programa nuclear iraniano assinado pelo Irã em conjunto com mais seis países em 2015 – além dos americanos, China, Grã-Bretanha, França, Alemanha e Rússia.

Ao mesmo tempo, os europeus têm claramente o mesmo olhar analítico que venho expondo por aqui; os iranianos não parecem dispostos a voltar atrás em seu projeto de hegemonia regional e, naturalmente, os israelenses percebem esta movimentação como ameaça direta contra seu território – em função do que tenho escrito aqui no site, principalmente a partir do que hoje as autoridades de segurança do país percebem como erros cometidos pelas administrações políticas anteriores em Gaza e no sul do Líbano.

É evidente que um conflito desta magnitude entre Irã e Israel não se restringiria a esses dois atores. Como ficou claro desde a invasão americana ao Iraque em 2003, os conflitos atuais – especialmente nesta região do planeta – são travados por exércitos regulares, mas incluem sempre milícias e grupos terroristas não-uniformizados das mais diversas fidelidades.

Talvez meio que por acaso o presidente americano, Donald Trump, esteja pressionando os europeus a encontrar caminhos alternativos por meio de sanções para evitar resultados que seriam trágicos também aos EUA. O regime iraniano sem qualquer comprometimento com o Ocidente e disposto a travar uma guerra direta com Israel deve se traduzir em consequências indesejáveis para a Casa Branca.

Vale lembrar sempre que esta administração Trump foi eleita prometendo reduzir os gastos e a atuação do país no exterior. Portanto, iniciar uma nova guerra no Oriente Médio – uma guerra que teria a marca de Donald Trump da mesma maneira que a Guerra do Iraque tem a marca de George W. Bush – é um resultado oposto às promessas de campanha do atual presidente americano.

E, para ser justo, este seria um conflito igualmente indesejado pelo presidente russo, Vladimir Putin, que empenhou as próprias forças desde setembro de 2015 em busca de estabilidade ma Síria. É certo que a escalada de um conflito agora teria como consequência o retorno à estaca zero. As zonas de exclusão, a manutenção de Bashar al-Assad no cargo de presidente e a redução da atuação dos grupos de oposição ao presidente sírio seriam novamente itens em disputa no cenário mais amplo.

Na prática, para ser muito claro, os europeus estão correndo para evitar não apenas uma guerra, mas o fracasso completo dos discursos de política externa de Donald Trump e Vladimir Putin. Pode parecer estranho e incoerente, mas é o que está ocorrendo na prática.