O antagonismo entre Irã e Arábia Saudita

27 de Abril de 2018
Por Henry Galsky Legenda: O presidente iraniano, Hassan Rouhani, é saudado pela Guarda Revolucionária 


Na guerra de tabuleiro do Oriente Médio atual, os jogadores são identificáveis, assim como os seus objetivos regionais. Vamos analisar posições e objetivos estratégicos de dois deles, Arábia Saudita e Irã:

Mohammed Bin Salman (ou apenas MBS, como é conhecido) é o príncipe-herdeiro da Arábia Saudita. Além das reformas internas e da versão moderna do dirigente árabe, ele representa também o principal foco de enfrentamento ao Irã. Nos bastidores, aproxima-se inclusive de Israel. 

No cenário regional, já confronta os iranianos e suas milícias xiitas satélites no Iêmen. A Arábia Saudita disputa com o Irã o monopólio quanto aos destinos do Islã no Oriente Médio, a primazia quanto à produção de petróleo e a corrida pela hegemonia política e militar regional. 

A Arábia Saudita está na linha de frente da defesa das monarquias sunitas do Golfo Pérsico que se enxergam sob ameaça diante do projeto de expansionismo iraniano. Para os sauditas, o modelo político do Irã – que mistura um modo de governo mais “aberto” que o de seus pares no Golfo ao islamismo xiita – carrega intrinsecamente propósitos de mudanças regionais capazes de varrer e derrubar os regimes sunitas estabelecidos. É, portanto, o inimigo a ser batido. 

O Irã é hoje o principal herdeiro da vitória da Rússia na Síria. É seu maior beneficiário. O regime fechado e sustentado em teoria por meio de paranoia e teorias de conspiração tem como objetivo fundamental a manutenção. Enxerga um ambiente regional hostil onde estão estabelecidos adversários poderosos; as monarquias sunitas capitaneadas pela Arábia Saudita. E Israel.

Mas o regime iraniano nasceu na adversidade, em 1979. O rompimento com o Ocidente logo depois da chegada dos aiatolás ao poder ensinou à liderança do país (primeiro por meio do aiatolá Khomeini e posteriormente pelo sucessor, o aiatolá Ali Khamenei) que é possível sobreviver sem ceder mesmo diante de grande pressão internacional e sanções. Por isso, ao contrário do que se poderia imaginar, o Irã encarou de frente a disputa. Não apenas quer se manter, mas também expandir regionalmente seu modo de governo, a república islâmica xiita. 

Suas alianças regionais seguem esta linha de irmandade xiita e confronto com adversários: o grupo terrorista palestino Hamas (que é sunita, mas está à margem da ordem internacional estabelecida), a milícia xiita libanesa Hezbollah, a Turquia (que não é xiita mas que não é árabe, assim como os iranianos, e que também divide preocupações similares às de Teerã, como a ideia de restrição ao projeto nacional curdo, por exemplo) e, finalmente, a Rússia – cuja chegada ao Oriente Médio representou de longe a grande oportunidade de alteração das configurações históricas da região. 

Para o Irã, que faz uso permanente dos pilares religião e política, o messianismo xiita é representado pelo conceito do Mahdi. Desaparecido no século nove da Era Comum, o islamismo xiita acredita que o Mahdi, ou o décimo-segundo imã, poderá retornar diante de uma realidade de uma grande calamidade. Esta mistura entre política e religião sustenta outro aspecto fundamental da atuação externa do país: os atritos com Israel. 

Leia mais sobre o messianismo islâmico 
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O Irã busca em suas alianças internacionais estabelecer presença contínua entre seu território e o Mar Mediterrâneo. Na Síria, desenvolve centros de pesquisa de produção e uso de drones e também procura estabelecer bases aéreas avançada. Para Israel, esses passos representam ameaça direta. 

Para o Irã, negar de maneira permanente o direito israelense à existência nacional e trabalhar com afinco para fragilizar as posições do país representam dois dos itens inflexíveis da estratégia de política externa porque encontram eco permanente na rua islâmica – que reverbera com frequência posições anti-israelenses moldadas pelo reforço de estereótipos antissemitas que também estão na base do discurso oficial iraniano. 

O Oriente Médio é historicamente uma região onde as alianças podem e costumam ser frágeis e temporárias. Há outros atores envolvidos no desenho estratégico de momento, mas entender a forma de interação e repulsa de Irã e Arábia Saudita é fundamental para avaliar as mudanças em curso. 

Esses dois países polarizam posições e carregam em torno de si outros atores estatais e não-estatais. A forma como atuam, seus propósitos, ambições e objetivos estratégicos compõem parte importante das transformações regionais.