Para Netanyahu, o Irã mente sobre seus objetivos nucleares

01 de Maio de 2018
Por Henry Galsky A divulgação nesta segunda-feira pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de extenso material sobre o programa nuclear iraniano sinaliza alguns caminhos importantes nas batalhas atuais do Oriente Médio. Um ponto fundamental é a realização de um projeto importante do próprio Netanyahu: tornar central nas discussões regionais os objetivos estratégicos levados adiante pelo regime iraniano. 

O líder israelense é porta-voz deste discurso há muito tempo. Sua atuação política mais recente no campo internacional – especialmente ao longo do século 21 – se funde às denúncias permanentes quanto aos riscos para Israel representados pelo protagonismo da República Islâmica e de seu projeto nuclear. 

Com a ascensão de Mahmoud Ahmadinejad à presidência do país e em toda a duração de seu mandato (entre 2005 e 2013) o conflito entre Irã e Israel – e, especialmente, a busca iraniana para levar adiante seu programa nuclear – passou a ser um assunto presente e encarado com gravidade pelo espectro internacional mais amplo. 

A maior vitória de Netanyahu é ter conseguido manter o tema em alta mesmo depois da assinatura do acordo em 2015. 

Desde o primeiro momento – desde as discussões da qual não participou – o primeiro-ministro israelense é um crítico contumaz ao acordo. Insistiu nas críticas, distanciou-se da Casa Branca administrada por Barack Obama (para quem o acordo simbolizava uma de suas principais conquistas internacionais) e correu o risco do isolamento entre as grandes potências, na medida em que a aproximação com o Irã representava vitória não apenas ao então presidente americano, mas a outros cinco países signatários (além dos EUA, França, China, Rússia, Grã-Bretanha e Alemanha). 

Mas Netanyahu foi paciente. Manteve sua tese de que os iranianos estavam enganando lideranças internacionais inocentes ou cúmplices do projeto de hegemonia regional de Teerã. Não tinha como convencer a comunidade internacional das acusações que fazia. Até agora, quando tudo parece ter mudado. Numa apresentação ensaiada e repleta de pausas dramáticas, mostrou o resultado prático de sua insistência. O material é vasto: 55 mil documentos e 183 CDs com 55 mil arquivos capturados pelos serviços de inteligência israelenses diretamente do arquivo secreto iraniano mantido em Teerã. 

O ponto sustentado pela apresentação do primeiro-ministro de Israel não é o de que o Irã não esteja cumprindo com as obrigações impostas pelo acordo. Mas que as potências internacionais assinaram um documento e se comprometeram a aliviar sanções econômicas a partir de falsas premissas, a principal delas de que é possível impedir que os iranianos sigam adiante com o projeto de obtenção de armamento nuclear. 

Isso porque a tese de Israel e da atual administração americana é de que, pelo formato atual de acordo, o Irã estaria apto a retomar seu programa nuclear posteriormente ao término do compromisso em vigor que expira em 2025. Portanto, considerando-se o material apresentado nesta segunda-feira, Teerã poderia retomar seu projeto inicial, na medida em que já possui conhecimento técnico e teórico para tal. 

Há também outro olhar, o de que os iranianos estariam burlando o acordo vigente. Seria este o caso, se houvesse desenvolvimento de armamento nuclear posteriormente ao acordo de 2015. Mas não me parece que este tenha sido o propósito da apresentação de Bibi. 

O líder israelense teve três objetivos em sua exposição (possivelmente alcançados): o primeiro deles, deixar evidente que as potências internacionais foram enganadas pelo Irã (esses países já começam a emitir notas negando desconhecimento sobre objetivos passados da República Islâmica, tentando, portanto, esvaziar o material tornado público nesta segunda); reafirmar sua posição histórica sobre o acordo (o slogan que passou a usar durante o processo de assinatura de que “nenhum acordo é melhor do que um acordo ruim”); e, por fim, reforçar a posição de seu maior aliado, Donald Trump – igualmente crítico ao acordo e rival permanente de seu antecessor e principal articulador da aproximação com os iranianos, o ex-presidente Barack Obama. 

E, diante disso tudo, sustentar com este material a decisão americana a ser tomada no próximo dia 12 de maio; a retirada unilateral dos EUA do acordo nuclear. Resta ainda um questionamento aos países que assinaram o acordo com o Irã em 2015 e que agora vêm a público esclarecer que tinham conhecimento do material apresentado por Netanyahu: se sabiam que o Irã tinha capacidade teórica e interesse na produção de arsenal atômico, por que o projeto de mísseis balísticos – que podem transportar armas nucleares – não foi enquadrado pelo acordo?