A estratégia de Donald Trump na Coreia e sua aplicação no Oriente Médio

04 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Antes de a apresentação dos arquivos nucleares secretos do Irã tomarem a pauta, havia informações de que uma base síria localizada entre Hama e Aleppo, no norte do país, teria sofrido um grande ataque na noite de domingo. A ofensiva teria sido tão intensa que Instituto Sismológico Mediterrâneo-Europeu anunciou registro de terremoto de 2.6 na escala Richter. 

Há especulações – com chance de correção – de que Israel teria realizado a ofensiva. Um oficial membro da aliança entre Síria, Irã e Hezbollah disse ao New York Times que o ataque teria destruído cerca de 200 mísseis e causado a morte de 16 pessoas – entre elas, 11 iranianos.

Israel não confirma nem nega o ocorrido. As autoridades do país não costumam comentar suas investidas. Mas é possível afirmar que uma ação desta magnitude cabe nos propósitos regionais e nas linhas de defesa do Estado judeu. A escalada de atuação israelense é clara.

Considerando-se as ofensivas de domingo, 29 de abril, e a desta quarta-feira, 2 de maio, desde setembro do ano passado, já seriam seis os confrontos diretos por parte de Israel diante do aumento da presença iraniana na Síria. Na derrocada da guerra civil local – e com a evidente vitória de russos e iranianos e do presidente sírio Bashar al-Assad –, Israel é quem mais perdeu no jogo regional.

Sem sucesso, em novembro de 2017 os israelenses não conseguiram pleitear a americanos, russos e jordanianos a demanda por impedir a aproximação de milícias xiitas pró-Irã em sua fronteira. Jerusalém exigia a manutenção dessas forças xiitas a pelo menos 60 km de distância. Os russos responderam vagamente com uma contraproposta insatisfatória aos israelenses: essas forças de pressão sobre o Estado judeu poderiam estar presentes entre cinco e 20 km de distância da fronteira.

Em fevereiro deste ano, o lançamento do drone iraniano sobre o território de Israel precipitou o início do plano em curso: impedir por si só que o Irã obtivesse sua vitória estratégica, inclusive com a instalação de centros de pesquisa militar, bases aéreas e transferência de mísseis guiados por GPS para o interior do território sírio.

Este é um cenário tão claro às potências internacionais que a proposta apresentada pelo presidente francês, Emmanuel Macron – imediatamente rejeitada por Teerã –, pretende salvar o acordo sobre o programa nuclear iraniano a partir da discussão e da inclusão de mais três itens: o projeto de mísseis balísticos do Irã, sua influência nos demais países do Oriente Médio (o plano de expansão hegemônica regional), e os acontecimentos posteriores a 2025 – a data de validade do atual acordo. 
Posteriormente a isso, o Irã poderia reiniciar seu programa nuclear para fins pacíficos.

Como é improvável que o acordo seja remendado – os iranianos já deixaram claro que não têm interesse em renegociar –, os israelenses estão agindo cada vez mais por conta própria. É provável que haja articulação com os americanos, principalmente porque me parece que o sinal verde para Israel dado por Trump esteja relacionado ao interesse do presidente americano de retirar de vez os soldados dos EUA da Síria.

Lembrem-se que Donald Trump se elegeu prometendo reduzir a atuação internacional do país em função do orçamento. Ao mesmo tempo, a Casa Branca está fortalecida pelo aparente sucesso da estratégia aplicada na Península Coreana.

A lógica de Trump está cada vez mais clara. Ao contrário de seu antecessor, Barack Obama, a administração Trump não se mostra interessada em extensas rodadas de negociação. Trabalha a partir da personalidade de seu presidente, esticando a corda o quanto é possível e deixando evidente a disposição total para obter os resultados que lhe interessa.

É inegável por enquanto que o raciocínio de pressão máxima aplicada à Coreia do Norte parece ter funcionado. Não se sabe se Washington irá conseguir obter o mesmo sucesso no Oriente Médio, mas Donald Trump parece disposto a tentar.

O caminho para a aplicação de pressão máxima sobre o Irã passa obrigatoriamente pelo cancelamento do acordo nuclear. No próximo dia 12 de maio, é provável que os EUA se retirem do tratado.

Por mais que os iranianos anunciem “surpresas” caso esta decisão americana se confirme, a situação não corresponde ao melhor cenário imaginado pela República Islâmica. Por algumas razões; a primeira delas é que os americanos retornarão com a aplicação de sanções. Especialmente a bancos de países que continuem a negociar petróleo com os iranianos.

A segunda delas é que a saída unilateral americana permitirá aos EUA atuarem livremente contra as instalações nucleares do Irã, se assim Washington desejar. O acordo nuclear é um compromisso que estabelece obrigações e limites a todos os signatários. Se o acordo deixa de valer, todas as opções retornam para a mesa de decisões americana.

Talvez por isso os iranianos ainda não tenham respondido ao primeiro ataque israelense – aquele de fevereiro posterior à destruição do drone iraniano que sobrevoou os céus de Israel. Uma retaliação a Israel agora pode adiar a resolução americana de tirar seus soldados da Síria. Além de precipitar um ataque conjunto de EUA e Israel à infraestrutura militar ou nuclear iraniana – o pior cenário imaginado pelo regime em Teerã.

O que está acontecendo agora é uma tentativa por parte de Israel de antever os passos do Irã. Muito possivelmente, destruindo armamento, transferência de tecnologia e instalação de sistemas de mísseis guiados por GPS. É possível que os israelenses considerem que justamente este arsenal poderia ser usado no contra-ataque iraniano.