EUA se retiram de acordo com o Irã e um mês de maio repleto de riscos no Oriente Médio

08 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Foto: simpatizantes do Hezbollah comemoram os resultados eleitorais nas ruas de Beirute

O mês de maio deste ano pode marcar a História como o início de transformações profundas no Oriente Médio. Há uma sucessão de datas repletas de simbolismo e que podem inflamar os ânimos numa região já naturalmente – geopoliticamente, claro – instável. Existe também a possibilidade de que os temores não se confirmem e nada de mais sério aconteça. Havia previsões catastróficas a partir da decisão de Donald Trump, anunciada em dezembro do ano passado, de transferir a embaixada americana em Israel para Jerusalém. Mas, além de protestos verbais e manifestações em alguns pontos do mundo islâmico, o anúncio não provocou nenhum ato de maior magnitude – uma guerra, como alguns imaginaram naquele momento.

A situação deste mês é diferente. Não porque a declaração sobre Jerusalém não tenha causado grande indignação no mundo islâmico, mas porque agora os eventos são sucessivos e afetam alguns dos principais atores regionais. Vamos aos acontecimentos:

Donald Trump vai retirar os EUA do programa nuclear iraniano. Tenho tratado deste assunto desde a assinatura do acordo, em 2015. E tenho acompanhado a abrodagem internacional sobre o Irã deste então, além da interação regional e dos planos hegemônicos da República Islâmica. É preciso examinar as consequências da decisão de Donald Trump; de maneira muito ampla, se os EUA voltarem a aplicar sanções econômicas a Teerã e aos países que negociarem com o Irã, é provável que os iranianos retomem o desenvolvimento de capacidade nuclear e suas possibilidades de obtenção de armamento atômico.

Portanto, mesmo num ambiente de sanções americanas, restarão aos EUA duas possibilidades práticas: aceitar a possibilidade do surgimento de um Irã nuclear ou assumir a postura de ataque militar à infraestrutura atômica do país. Qualquer dessas possibilidades é ruim para os americanos, lembrando sempre que Donald Trump chegou à Casa Branca prometendo a redução dos gastos militares internacionais. Iniciar uma guerra contra o Irã é, naturalmente, a antítese deste raciocínio. A possibilidade de retornar à mesa de negociações é improvável. Os iranianos certamente resistiriam a renegociar e já anunciaram esta posição. Sempre é possível que isso mude, mas há poucos sinais de que isso poderia ocorrer.

No Líbano, onde o Hezbollah tem força cada vez maior, as eleições locais ampliaram o poder do grupo aliado ao Irã. O número de assentos que ocupa no parlamento libanês permanece o mesmo – 13 –, mas seus aliados internos que apoiam sua expansão como grupo armado ganharam força política. Inclusive enfraquecendo o primeiro-ministro do país, o sunita Saad Hariri, que representa localmente as posições da ampla coalizão regional formada pelas monarquias sunitas do Golfo Pérsico e apoiada pelos EUA. No Líbano, o Irã levou dessa vez. 

No dia 12 os iraquianos vão às urnas. O Iraque é um país dividido. Sua população é majoritariamente formada por muçulmanos xiitas (entre 64% e 69%. Os sunitas compõem entre 29% e 34% do total). Saddam Husseein, que era sunita, privilegiou a minoria do país durante seu mandato presidencial (1979 a 2003).

Este ambiente de desconfiança e rivalidade interna permaneceu mesmo depois da queda do ditador. Nouri-al Maliki foi primeiro-ministro do país entre 2006 e 2014. Assim como Saddam, ele aprofundou o sectarismo iraquiano, mas ao contrário. Membro da corrente xiita – a maioria da população, como escrevi –, ele entregou os principais cargos de governo aos aliados xiitas, seguindo a lógica de divisão interna do ex-ditador. Este cenário contribuiu para o sucesso inicial do grupo terrorista sunita Estado Islâmico (EI). Com o país dividido e temendo a represália da maioria xiita depois de 24 anos de governo de Saddam Hussein, a minoria sunita inicialmente enxergou o grupo terrorista como uma possibilidade de proteção.

Hoje, há dois países fundamentais no processo de estabilização iraquiana: EUA e Irã. Há um acordo silencioso entre as partes. Principalmente porque o Irã, a maior potência xiita do mundo, considera a estabilidade do país vizinho um aspecto fundamental para a própria segurança interna e também para seus planos de expansão regional. O grupo Estado Islâmico é sunita e, portanto, inimigo da República Islâmica – não apenas pela questão sectária, mas também por ela.

No Iraque, desde 2014, o xiita Haider al-Abadi ocupa o cargo de primeiro-ministro e, no meio desta situação de fragilidade, tem conseguido trabalhar para equilibrar as demandas sectárias ao mesmo tempo em que dialoga com americanos e iranianos. Mas, claro, esta é uma posição delicada e todas as conquistas podem ser perdidas dependendo dos resultados eleitorais. Al-Abadi é um dos favoritos da disputa.

Além desses dois grandes acontecimentos – Trump e sua decisão sobre o Irã e a corrida eleitoral no Iraque – no dia 14 de maio haverá a cerimônia oficial de transferência da embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Além do ambiente de permanente tensão, o conflito entre israelenses e palestinos ganhou mais elementos no ano em que o estado judeu celebra seus 70 anos de independência. A transferência da embaixada americana acontecerá exatamente no mesmo dia em que os israelenses declararam independência há 70 anos. A data marca também o olhar palestino sobre a questão; a chamada “Nakba”, catástrofe, em árabe.

Enquanto Israel celebra seus 70 anos, os palestinos em Gaza têm realizado manifestações na cerca que separa o território de Israel. Os eventos ganharam o nome simbólico de Grande Marcha do Retorno e têm ocorrido ao longo de todas as sextas-feiras desde o dia 30 de março. As manifestações são insufladas pelo Hamas, grupo terrorista que controla Gaza desde 2007. Há protestos pacíficos e também violentos, como o que ateou fogo em Kerem Shalom, no dia 4 de maio, danificando a principal passagem de produtos de abastecimento para a população de Gaza. Diariamente, entram no território por meio deste posto de fronteira 600 caminhões de carga.

Não se sabe se a Marcha ganhará força no contexto de maio. Além desses eventos, a noite do dia 15 de maio marca o início do Ramadã, o mês mais sagrado do islamismo quando os muçulmanos jejuam durante todo o dia, rezam e celebram as revelações contidas no Corão, o livro sagrado. O Ramadã é um período também de forte afirmação de identidade e, por isso, pode representar o fortalecimento de causas políticas muçulmanas, especialmente diante de todo o contexto que expliquei acima.