Confronto aberto entre Israel e Irã e a estratégia regional de Donald Trump

10 de Maio de 2018
Por Henry Galsky A escalada de tensões entre Irã e Israel não demorou muito. Apenas dois dias depois do anúncio de Trump sobre a saída americana do acordo nuclear, os iranianos cumpriram a promessa de lançar uma ofensiva sobre Israel. A retórica de confronto entre os dois países já vinha subindo, especialmente depois que em 10 de fevereiro passado um drone iraniano sobrevoou o território israelense antes de ser abatido. Na sequência deste evento, o estado judeu iniciou uma série de ações para destruir alvos militares do Irã estacionados na Síria. 

Na noite desta quinta-feira, foi a vez de o Irã agir, como as autoridades do país já haviam prometido. No entanto, o resultado deste round de enfrentamento causou grande prejuízo à Repúblic Islâmica, principalmente diante da crise econômica que atinge o país e das altas somas (estima-se que algo entre dez e 15 bilhões de dólares) alocadas no projeto de expansão e construção hegemônica regional. 

O cenário apresentado até agora, inclusive pela TV estatal síria, aliada do presidente Bashar al-Assad, reforça o grande poderio militar israelense. Os iranianos lançaram 20 mísseis sobre as Colinas de Golan. Deste total, 16 foram interceptados pelo sistema de defesa antiaérea de Israel. Os outros quatro mísseis caíram no lado sírio do Golan. 

Na sequência, a Força Áerea de Israel atuou diretamente contra os alvos do Irã na Síria. Desta vez, no lugar de ataques pontuais, uma ofensiva mais ampla que atingiu dezenas de bases militares e deixou 23 oficiais iranianos mortos. De acordo com o ministro da Defesa do país, Avigdor Lieberman, “quase toda a infraestrutura militar do Irã na Síria foi destruída”. É impossível verificar a veracidade desta declaração, mas é possível dizer, por ora, que há possibilidade real de impacto nos projetos regionais da República Islâmica, ainda mais num ambiente de crise econômica. O acordo sobre o programa nuclear funcionava também como possibilidade de aumento de receitas e investimentos internacionais. 

No campo militar, não se sabe se depois da grande ofensiva israelense o Irã recuará ou decidirá partir para um contra-ataque. Sob a perspectiva iraniana, o primeiro round foi perdido. Israel venceu com folga. 

A estratégia de Trump

A decisão Americana de pular fora diz muito sobre a estratégia do presidente Donald Trump. O gesto carrega muitos significados, alguns deles muito óbvios, como o aumento das tensões no Oriente Médio, e outros muito prazerosos ao atual líder americano, como a destruição de uma das principais peças de política externa de seu antecessor e desafeto permanente Barack Obama.

O acordo sobre o programa nuclear era exemplo conceitual da administração Obama: o ex-presidente era diplomata na essência, realizando cada passo de política externa como parte de um pensamento maior que, principalmente, buscava o diálogo acima de qualquer outra possibilidade. Por mais que Obama sempre usasse o poderio militar incontestável e inigualável de seu país, a verdade é que nunca a ideia de seguir adiante com um ataque contra o Irã esteve realmente “sobre a mesa”.

Isso estava tão claro que, posteriormente ao primeiro ataque com armamento químico na Síria, em agosto de 2013, quando Obama poderia ter usado a força sem receber qualquer crítica internacional, o presidente americano hesitou. E recuou. Este é um dado de extrema relevância na construção do imaginário sobre o ex-presidente, que fez um acordo com Bashar al-Assad para que este entregasse seu arsenal químico – um acordo teoricamente cumprido pelo presidente sírio, mas difícil de ser defendido depois que novamente civis sírios foram atacados com armas químicas. Em duas outras ocasiões, já com Trump na presidência.

Voltando ao acordo iraniano, ele é também uma peça da lógica Democrata nos EUA. E é difícil imaginar alguém com um perfil tão claramente Democrata quanto Obama. Sua administração envolveu as demais potências internacionais, dialogou extensamente e conseguiu pôr em prática a aliança transatlântica com os europeus. O acordo é um retrato do modo de operação Democrata, reforçando laços com a velha Europa, incluindo os atores de peso do outro lado do espectro – China e Rússia – para dobrar um regime inimigo.

Esta é a obra de arte do governo Obama dilapidada por Donald Trump. Não é pouco. Para o atual presidente, isolar novamente o Irã é jogar no lixo a obra de Obama e da aliança transatlântica. Mas é essa também a oportunidade de contra-ataque político fornecida aos iranianos.

O Irã já disse que está disposto a seguir no acordo, mesmo depois da saída unilateral americana. Jogou a bola no colo dos demais signatários. Com Rússia e China a conversa é mais fácil. Fiadores permanentes da República Islâmica, respondem apenas por si. Mas e quanto a Grã-Bretanha, Alemanha e França? Ficam ou saem? Se ficarem, correm o risco de bater de frente com Washington. Se saírem, afetam a própria ideia de diplomacia independente por ceder às pressões dos EUA. Esta é a possibilidade de ganho do Irã.

Se os europeus seguirem no acordo, terão isolado os EUA. E como Trump poderá reagir neste cenário? Eventualmente até em outros fóruns, como na Otan, por exemplo, um dos alvos do presidente americano no início de seu mandato, contestando os altos custos pagos pelo país na defesa dos aliados.

Aliás, é bom deixar claro que, além de ser a antítese óbvia de Barack Obama, Trump também tem uma linha de atuação internacional cada vez mais clara. Na questão iraniana, está aplicando a mesma pressão exercida sobre a Coreia do Norte; o princípio é o mesmo: esticar a corda, retomar as sanções e aguardar a capitulação diante da possibilidade de enfrentar um cenário pior do que o atual. Mas o Oriente Médio tende a ser mais complicado e complexo que a Península Coreana.

Um confronto amplo entre o Irã e Israel – a situação mais óbvia – possivelmente envolveria o Líbano, em função do Hezbollah, uma frente em Gaza com o Hamas, a Síria – pondo a perder as conquistas obtidas no duro processo de enfrentamento de russos, sírios, curdos e americanos com “rebeldes” e  o Estado Islâmico – além das monarquias sunitas do Golfo que buscam conter os avanços regionais iranianos. Não é uma possibilidade que racionalmente todos os atores mencionados pretendem enfrentar. Ninguém tem a ganhar.

É com essas grandes possibilidades de perda que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, trabalha. O seu ponto é simples: depois da vitória representada pelo discurso de Trump se retirando do acordo (contra o qual Bibi briga desde 2015), é preciso mostra a Putin que a aliança de Moscou com o Irã pode levar o país a perder suas conquistas regionais.

Israel não pretende permitir que os iranianos transformem a Síria num ponto de pressão sobre o território israelense. Depois de perder suas posições no sul do Líbano e em Gaza – dando vantagens estratégicas praticamente de maneira voluntária a seus inimigos Hezbollah e Hamas –, os israelenses vão lutar o quando puderem para impedir que a situação se repita, mas, dessa vez, com um inimigo muito mais poderoso. Esta é a missão do primeiro-ministro: convencer os russos a frear os ímpetos de seus aliados iranianos.

Neste momento seguinte à saída americana do acordo, todos os jogadores estão como num cinema brasileiro dos anos 1980 em dia de lançamento do filme de férias: não há lugar marcado, a porta da sala acabou de ser aberta e todo mundo está correndo para conseguir um lugar.