Na data ocidental dos 70 anos de Israel, a vitória de momento é de Benjamin Netanyahu

15 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Apesar da onda de violência em Gaza e da possibilidade de um novo conflito com o Hamas (assunto do próximo texto), este é o ponto alto da vida de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel. No ano que vem, se continuar a ocupar o cargo mesmo diante das denúncias de corrupção, irá ultrapassar David Ben Gurion como o chefe de estado que por mais tempo permaneceu à frente do governo israelense. Mas falta muito para o ano que vem. O período das duas últimas semanas já representam os seus melhores dias na vida pública.

Depois de apresentar provas que garante terem sido obtidos pelos serviços de inteligência do país sobre as reais intenções de militarização do programa nuclear iraniano, bastou a Netanyahu apenas aguardar e comemorar cada uma das consequências seguintes.

A primeira dessas consequências, a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear internacional sobre o programa nuclear do Irã, representa um dos pilares recentes da vida do primeiro-ministro israelense. Ao longo do século 21 – e com especial ênfase nos últimos dez anos –, Netanyahu é um crítico contundente das aspirações regionais de Teerã e de seu programa nuclear.

Os dois mandatos em sequência do ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad facilitaram o trabalho do primeiro-ministro israelense. A radicalização de seu discurso, o célebre pronunciamento na tribuna da ONU clamando pela destruição do estado judeu e as extensas negociações acerca de seu projeto atômico permitiram concentrar as atenções mundiais sobre as intenções regionais iranianas. Netanyahu surfou a onda. Para ele, as ambições do Irã no Oriente Médio, a construção de bases na fronteira norte de Israel e a aliança do país com a milícia xiita libanesa Hezbollah configuram hoje a principal ameaça estratégica à sobrevivência de Israel. Hezbollah e Irã passaram a atuar, para as autoridades do estado judeu, como uma frente única em busca de consolidação no norte.

A luta de Netanyahu para anular esta ameaça tem sido frutífera. Para além da grande conquista diplomática consolidada nesta segunda-feira (a transferência da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém), o primeiro-ministro tem acumulado sucessivas vitórias a partir de seus embates com os iranianos. O sucesso no primeiro round militar – depois que o Irã lançou mísseis sobre Israel sem conseguir causar qualquer dano –, praticamente neutralizando as posições iranianas na Síria veio seguida de sucessos políticos e diplomáticos.

Na semana passada, Netanyahu esteve pessoalmente com o dono do tabuleiro regional, o presidente russo Vladimir Putin. Um dos assuntos sobre os quais trataram foi a ameaça russa de repassar aos sírios o sistema de defesa antiaérea avançada S-300. Os mísseis terra-ar dificultariam – ou tornariam menos relaxada e confiante – a atuação da Força Aérea Israelense em suas missões na Síria. Justamente as missões que com cada vez mais intensidade procuram anular as posições iranianas no país vizinho.

Benjamin Netanyahu esteve em Moscou como convidado de Putin para celebrar a vitória russa contra o nazismo há 73 anos. O discurso de Netanyahu pode ser compreendido como uma atualização do evento para os dias atuais, ao menos sob a perspectiva de Jerusalém.

“Setenta e três anos depois do Holocausto, ainda há um país no Oriente Médio, o Irã, que abertamente pede a destruição do estado de Israel”, disse. Esta é mais uma vez a forma como o primeiro-ministro interpreta a configuração regional a partir dos esforços iranianos de estender a Revolução Islâmica e sua influência entre o território do país e o Mar Mediterrâneo.

A conversa com Putin foi produtiva. A ponto de a agência Reuters citar o jornal Izvestia; ouvido pela publicação, Vladimir Kozhin, assessor de Putin responsável pela assistência militar a países aliados de Moscou, disse que não há no momento negociações com o governo sírio para o fornecimento dos mísseis S-300. A decisão certamente é resultado da conversa pessoal entre os dois líderes, Netanyahu e Putin. E ela pode ter ocorrido graças à grande demonstração de força de Israel na punição ao Irã, mas também, claro, porque favorece a estratégia de Putin, que conseguiu alcançar o patamar de árbitro regional – muito porque é o único que hoje fala com todos os envolvidos (Israel, Hezbollah, Irã, Arábia Saudita etc).

Em política, vale a resposta popular, pelo menos em democracias. Em Israel, a interpretação do eleitorado reflete uma ampla vitória de Netanyahu. Duas pesquisas divulgadas na última semana apontam grande crescimento de seu partido, o Likud.

O primeiro levantamento, da Rádio do Exército, mostra que, se as eleições fossem realizadas hoje, o Likud obteria 42 assentos no Knesset, o parlamento israelense, um aumento de 12 cadeiras em relação à situação atual. O Yesh Atid, do adversário e nome forte do cenário político Yair Lapid, ficaria em segundo lugar, mas com menos da metade das cadeiras: 18. O partido de esquerda União Sionista, atualmente a segunda principal bancado no Knesset, sofreria uma grande derrota. Seu número de representantes seria reduzido dos atuais 24 para apenas dez.

A segunda pesquisa, realizada pelo canal de jornalismo Hadashot, apresenta números menos hiperbólicos, mas que atestam os ganhos incontestáveis de Netanyahu; o Likud conquistaria 35 cadeiras, o Yesh Atid, 18, e o partido União Sionista, 14.

Os números podem variar um pouco, mas é inegável que este é um momento de ascensão para o primeiro-ministro graças a fatos praticamente sequenciais que começaram com o reconhecimento de Trump sobre Jerusalém como capital de Israel, em dezembro passado, e atingiram seu ápice nas duas últimas semanas: apresentação do primeiro-ministro mostrando os documentos sobre o projeto nuclear iraniano; decisão de Donald Trump de retirada unilateral do acordo; ataque iraniano contido pelo sistema de defesa aéreo de Israel e contra-ataque fulminante; e a cerimônia de transferência da embaixada americana para Jerusalém - esta última parcialmente eclipsada pelos acontecimentos em Gaza, vale dizer.

Diante disso tudo, pelo menos até este momento – a fluidez de acontecimentos no Oriente Médio é sempre intensa e surpreendente – é possível confirmar que Benjamin Netanyahu é hoje o principal vitorioso entre seus pares e rivais regionais e domésticos.