Neutralizado em ações militares, Hamas encontra ponto fraco de Israel

17 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Os eventos de violência e confrontos na fronteira entre Gaza e Israel têm sido especialmente satisfatórios ao Hamas. Tenho escrito sobre este movimento que o grupo chama de Marcha de Retorno desde a primeira grande onda de manifestações realizada no dia 30 de março. O conceito criado pelo Hamas – que desde 2007 tem o controle monopolizado interno do território costeiro palestino – não é exatamente novo, mas indica uma leitura alternativa de sua liderança a partir das impossibilidades de atuação contra Israel.
 
Ao longo do século 21, Hamas e Israel travaram três conflitos abertos: em 2009, 2012 e 2014. Em todas essas ocasiões, a dinâmica de lançamento de mísseis sobre o território de Israel por parte do movimento palestino e o consequente revide das Forças de Defesa de Israel (FDI) deram o tom permanente da dinâmica de enfrentamento.
 
Em junho de 2006, membros do grupo construíram um túnel subterrâneo e capturaram o soldado Gilad Shalit (em 2011, Shalit foi solto em troca da libertação de 1.027 prisioneiros palestinos). No entanto, a sensação de surpresa para Israel ocorreu em 2014, quando foi descoberta uma extensa rede de túneis subterrâneos capaz de permitir a realização de ações no interior de Israel. Este elemento novo causou grande polêmica em Israel, uma vez que a sociedade passou a questionar o governo e órgãos militares pela incapacidade de antecipação.
 
Toda a experiência adquirida nesta primeira década e meia de século – somada inclusive ao debate interno iniciado a partir da revelação dos túneis – permitiu a Israel preparar mecanismos de combate eficazes para lidar com o Hamas. O Domo de Ferro, sistema capaz de abater mísseis lançados sobre o território ainda no ar, neutralizou a principal arma do Hamas. Para a rede de túneis, ataques aéreos e a construção de um muro subterrâneo. A grande equipe de inteligência cuida das tentativas de ações que procuram outros caminhos, como o envio de homens-bomba de Gaza às cidades de Israel.
 
As três guerras travadas com o Hamas permitiram aos israelenses adquirir, pensar e colocar em prática maneiras de anular as ações inimigas.
 
Mas o Hamas sabe que ainda há um ponto ao qual sempre é possível recorrer: o isolamento internacional e as condenações a Israel a partir do enfrentamento de seu exército contra a população palestina – seja ela formada por civis ou por membros militares do grupo misturados à multidão. 

Desde o dia 30 de março este é o projeto que tem sido colocado em prática e que atingiu o seu ápice no último dia 14 de maio. A mobilização de milhares de pessoas na fronteira de Gaza com Israel era um plano que trabalhava a partir de um ativo com o qual o Hamas não se importa; a vida dos próprios palestinos. Bastava mobilizar a população civil – convencendo-a ou obrigando-a a enfrentar as forças israelenses – que o resto do trabalho estava consumado.
 
Nesta semana, no dia da inauguração da embaixada americana em Jerusalém, escrevi um texto por aqui listando os acontecimentos que, um a um, deixavam evidentes as sucessivas vitórias do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. O Hamas alterou parcialmente esta narrativa de Netanyahu justamente no dia mais aguardado. Na imprensa internacional, a pauta sobre a transferência da embaixada dividiu espaço com os confrontos – e mortos – em Gaza. Este foi o golpe do Hamas contra Israel.
 
A partir disso, as consequências esperadas pelo grupo, como a atribuição a Israel do monopólio da vilania, as críticas de lideranças europeias e a tentativa do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, de transformar o isolamento de Israel – que tende a ser momentâneo – em ativo permanente, além de reforçar, naturalmente, a posição de liderança pretendida por Erdogan diante da população islâmica, especialmente entre os árabes.
 
Vale lembrar sempre que, apesar de se opor ao presidente sírio, Bashar al-Assad, a Turquia, membro da OTAN, é aliada de russos e iranianos na Síria. 

Nesta terça-feira, Turquia e Israel expulsaram mutuamente seus embaixadores. A relação entre os dois países deve ser reduzida ao mínimo, se não chegar a ser rompida. O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, conclamou os países muçulmanos a reverem suas relações com Israel. O confronto retórico com os israelenses é item frequente na agenda de Erdogan, cuja plataforma de ressurgimento da grande Turquia – chamada de “neo-otomanismo” – precisa encontrar eco e popularidade entre a população islâmica – e árabe em particular.
 
Para o Hamas, a sensação de vitória aumenta a partir de cada nova condenação internacional. Além de retórica, os confrontos resultaram em derrotas diplomáticas claras a Israel: não apenas a Turquia decidiu expulsar o embaixador israelense. O gesto mais extremo foi seguido pela África do Sul. Mas Irlanda e Bélgica convocaram os representantes de Israel nesses países para explicações.
 
Na luta pela liderança palestina, o Hamas obteve resultados práticos também sobre seus adversários internos do Fatah, grupo que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia. Enquanto a AP não conseguiu dar passos significativos de forma a confrontar Israel durante as comemorações pelos 70 anos de independência do Estado judeu – especialmente diante da abertura da embaixada americana em Jerusalém –, o grupo terrorista em Gaza conseguiu pôr em prática estratégia que expôs e está rendendo uma enorme dor de cabeça a Israel. Mesmo que todo este plano tenha custado a vida de dezenas de palestinos – membros do Hamas também estão entre os mortos. 

Mas ainda é possível que a tensão seja reduzida. Isso porque a ação do Hamas não cria resultados em benefício da própria população sob seu governo. A vida dos moradores em Gaza não tende a melhorar, muito pelo contrário. Os 70 anos de Israel e a decisão sobre a embaixada americana guardam grande arsenal simbólico capaz de criar mobilização interna. Mas e depois? Não que o Hamas esteja exatamente preocupado por eventuais questionamentos internos – Gaza não é uma democracia e críticos pagam com a vida –, mas seus líderes temem pela reação de Israel.
 
Já há hoje vozes do governo israelense alegando que a saída para a crise passa pelo assassinato das lideranças do Hamas. É o caso do ministro da Defesa Pública Gilad Erdan. Para parte do governo de Israel – inclusive Erdan – tirar de cena a liderança do Hamas é um meio de impedir o prolongamento da crise. A morte da liderança do grupo pode não acabar com o Hamas, mas atrapalha suas ações de longo prazo, inclusive os contatos com fontes de financiamento já estabelecidas. Este temor por parte do Hamas talvez seja o ponto limitador dos confrontos atuais.