O Irã pode ser a principal razão de ruptura entre EUA e Europa

22 de Maio de 2018
Por Henry Galsky No dia 8 de maio, portanto uma semana antes dos acontecimentos em Gaza monopolizarem a cobertura internacional, o presidente americano, Donald Trump, anunciava em Washington a retirada americana do acordo sobre o programa nuclear iraniano. Por mais que o conflito israelense-palestino mobilize a atenção internacional por uma série de razões (este conflito está longe de ser a única razão de instabilidade do Oriente Médio, muito pelo contrário), a região hoje está em transformação pela disputa antagônica entre xiitas e sunitas e pelas derivações geopolíticas que, também parte do antagonismo entre xiitas e sunitas, colocam em oposição os atores árabes (as monarquias do Golfo Pérsico) e os não-árabes (Irã, Rússia e Turquia).

Assim, à parte das paixões internacionais sobre o conflito entre israelenses e palestinos – a natureza exacerbada dessas paixões envolve aspectos religiosos e preconceituosos originários em boa medida na história europeia e ocidental –, o acordo que regula o programa nuclear iraniano tem peso regional mais relevante. Ele se encaixa como peça fundamental do jogo em curso de transformação do Oriente Médio e da mudança de papéis que tem na presença de Vladimir Putin como patrão e árbitro das relações entre os atores sua principal e mais evidente expressão.

Agora, para além dessas questões, depois que Donald Trump anunciou a saída de Washington do acordo nuclear, havia também dúvidas sobre o posicionamento europeu. Como uma das várias consequências da decisão americana, a chamada aliança transatlântica passou a ficar em xeque. Havia o questionamento claro sobre o posicionamento europeu institucional (a União Europeia é signatária do acordo) e dos países do continente que individualmente também participaram do duro processo de negociações com os iranianos (França, Grã-Bretanha e Alemanha). Os outros signatários são o próprio Irã, China e Rússia. Mais adiante comentarei a posição desses países.

O fato é que aos poucos ganha força um movimento europeu capaz de em teoria abalar a relação com os EUA. Na última semana, reunidos em Sofia, na Bulgária, os 28 membros da UE demonstraram convergência ao seguir a proposta do presidente do bloco, Donald Tusk, de se contrapor às medidas unilaterais tomadas pelos americanos. O acordo nuclear iraniano é um dos itens da agenda europeia que também inclui a contestação às posições da atual administração em Washington sobre as mudanças climáticas e a imposição de tarifas sobre alumínio e aço.

Em contrapartida às tarifas impostas pelos EUA, os europeus preparam um pacote de reciprocidade no valor de 3,3 bilhões de dólares sobre produtos americanos importados ao bloco. A taxa europeia deve chegar a 25%.

Esta atitude pode ser resumida pelo raciocínio do comissário europeu de orçamento, Guenther Oettinger, que, em entrevista a uma rádio alemã, disse que “Trump despreza os fracotes”.

Está claro, pelo menos por ora, que a posição da UE será a de demonstrar força para negociar com o presidente americano. Desta forma, está quase oficializada a exportação do modelo de política internacional de Trump no qual o confronto é a primeira atitude no caminho para a negociação. O olhar europeu sobre o Irã deve seguir a mesma lógica.

Neste momento, a UE e os três principais líderes europeus (Emmanuel Macron, Angela Merkel e Theresa May) discutem formas de salvar o acordo e manter operacionais as indústrias iranianas de gás e petróleo. Para ser muito objetivo, os europeus procuram salvar o regime iraniano das sanções que voltaram a ser impostas pelos EUA. É um gesto de enorme relevância internacional.

A Comissão Europeia, o braço executivo e independente da UE, propõe que os governos do bloco realizem transferências bancárias diretamente ao banco central iraniano para fugir das penalidades do sistema financeiro americano.

Para os signatários não-europeus do acordo nuclear, este é mais um cenário de resultados positivos até então inimagináveis. Nem iranianos, nem chineses, nem russos poderiam sonhar que o acordo assinado em 2015 teria potencial para representar, três anos depois, uma ruptura de interpretação inquestionável no núcleo de seu principal e mais poderoso eixo de oposição: a aliança histórica entre Europa e EUA, como escrevi, a chamada aliança transatlântica. E Rússia, Irã e China não precisam fazer absolutamente nada. Basta aguardar a sucessão de acontecimentos.