Apesar da reviravolta na Coreia do Norte, Trump ainda pode capitalizar interação entre Europa e Irã

25 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Se a intenção dos europeus realmente for a de salvar o acordo nuclear, a depender dos resultados das novas tratativas com os iranianos é possível inclusive que seus efeitos possam ser entendidos e divulgados por Donald Trump como uma vitória de seu governo. Uma afirmação como esta pode parecer estranha num primeiro momento, principalmente dado o elevado nível de tensão atual. 

Primeiro é importante ter muito claro: principalmente depois do discurso do secretário de Estado americano Mike Pompeo sobre o Irã e do dueto que ele faz com o assessor de Segurança Nacional John Bolton – dois dos falcões da cúpula de governo e personagens centrais da política externa de Trump – é evidente que o cenário projetado pela atual administração americana não é o remendo do acordo, mas a mudança do regime iraniano. 

Pompeo expôs objetivos de curto, médio e longo prazos que, naturalmente, não serão aceitos de bom grado por Teerã. Um desses objetivos, por exemplo, é a redução da influência regional iraniana no Oriente Médio, uma das formas de atuação do regime da República Islâmica e seu braço internacional mais visível.  

Lembrando sempre que, para além da política externa, o propósito permanente e fundamental do governo iraniano é a manutenção do regime. Imaginar que a pressão exercida por novas sanções americanas será capaz de derrubar de vez os aiatolás é ignorar a história do país desde a chamada Revolução Islâmica de 1979. 

No entanto, mesmo que a consequência seja o aprofundamento da divisão entre europeus e americanos como escrevi em meu texto mais recente, o efeito desta ruptura para os EUA especificamente em relação ao Irã pode ser interpretada por Donald Trump positivamente. Há muitos cenários possíveis, mas me dedicarei por ora a apenas um deles sem entrar no mérito de estabelecer percentuais de chances de sucesso. 

O ambiente para Trump era muito positivo há apenas algumas semanas. A divulgação das visitas de Pompeo à Coreia do Norte, a pacificação possível na península coreana, a reproximação das duas Coreias, o planejamento do encontro de junho entre o presidente americano e o líder norte-coreano em Cingapura eram todos elementos que engrossavam a narrativa de que havia de fato um planejamento de política externa em Washington. Essa política não apenas existia, mas diferia em método da aplicada pelo seu antecessor, antagonista e rival permanente – pelo menos sob o ponto de vista de Trump – Barack Obama. E essa estratégia alcançava resultados rápidos, indolores e positivos. 

Mas, pelo menos por ora, os ventos mudaram. O encontro entre os dois líderes foi cancelado, e é possível que a vitória clara já não seja mais nem tão próxima nem tão evidente. E aí a ideia de replicar a estratégia coreana no Irã perde força quando a intenção é sustentar os argumentos quanto a seu sucesso. 

Mas se os europeus tomarem os iranianos pela mão e conseguirem entre si melhorar o acordo? É claro que a maneira mais óbvia de interpretar esta possibilidade é, claro, dar crédito à insistência, resiliência, disciplica e autonomia europeia, reconhecendo o trabalho diplomático e o renascimento internacional da União Europeia e da Grã-Bretanha. Se os europeus incluírem o projeto de mísseis balísticos iranianos no novo acordo, a UE e o Reino Unido conseguirão também se sobrepor à dicotomia entre Obama e Trump, alterando um aspecto importante da política internacional recente. 

Num mundo cada vez mais interpretativo, este eventual sucesso europeu poderia ser revertido a favor da administração americana. Trump poderia argumentar que graças à decisão de retirada do acordo teria sido possível pressionar os iranianos de forma a comprometer seu projeto de mísseis balísticos. 

Ao mesmo tempo, o presidente americano poderia reafirmar sua agenda eleitoral; ao repassar a tarefa aos europeus, mais uma promessa teria sido cumprida: a redução dos gastos na política internacional simultâneo ao esforço de proteção dos que aliados regionais estratégicos (Israel e as monarquias do Golfo Pérsico) – que finalmente estariam a salvo partir da desmobilização da ameaça representada pelo Irã. 

Este é um dos cenários possíveis abertos pela atuação europeia e pela retirada de Trump. Se o que escrevi se confirmar, é o tipo de sucesso raro em que todas as partes envolvidas ganham, exceto, claro, o regime iraniano.