Colômbia: eleições, Venezuela e adesão à OTAN

29 de Maio de 2018
Por Henry Galsky Há um novo movimento na América Latina. Não é exatamente novo, mas tem sido marcante em todas as disputas eleitorais recentes no continente, especialmente na América do Sul: o temor à Venezuela. O país é observado com desconfiança e sua situação caótica sob o ponto de vista econômico, social e político polariza o eleitorado sul-americano, transformando-se também em fonte de oportunismo permanente a candidatos que acusam concorrentes a partir de slogans bastante superficiais. 

O fracasso do regime venezuelano está presente no Brasil até mesmo na greve dos caminhoneiros. Nas redes sociais, há até alguma ingenuidade – sempre muito bem aproveitada por segmentos políticos – ao comparar a crise de desabastecimento e um cenário passado (quando Lula e Dilma ainda eram figuras presentes nas disputas políticas nacionais) a possibilidades futuras (colocando a Venezula, Chavez e Maduro num bloco único onde se encontram todos candidatos de oposição, sejam eles Marina Silva, Guilherme Boulos, Manuela D’Ávila ou Ciro Gomes). 

No ano eleitoral brasileiro – na disputa que tende a ser a mais polarizada no país desde o processo de redemocratização – a Venezuela, seus dramas e fracassos protagonizarão a corrida pela sucessão de um governo sem legitimidade alguma.

No plano sul-americano não tem sido diferente. Agora, no entanto, está em curso uma disputa onde a Venezuela é assunto central do debate por razões práticas e pelo medo que a ideia de Venezuela inspira nos países vizinhos. Na fronteira do país e tendo recebido cerca de 800 mil refugiados nos últimos anos, a Colômbia já sabe quais serão seus dois candidtos no segundo turno. 

Gustavo Petro, ex-guerrilheiro, membro do congresso e prefeito da capital Bogotá, é o candidato da esquerda. Recebeu no primeiro turno 25,1% dos votos, mas tem alto índice de rejeição, 37%. Petro tem sido alvo de uma campanha permanente de associação a Fidel Castro e Hugo Chavez promovida por seus adversários, especialmente a partir da candidatura de Iván Duque – contra quem irá disputar o segundo turno. 

Duque é o sucessor político de Álvaro Uribe, presidente que antecedeu o atual ocupante do cargo Juan Manuel Santos, e obteve 39,1% dos votos no primeiro turno. É o favorito na corrida presidencial. Sua agenda inclui não apenas uma forte crítica à esquerda, mas também a promessa de reforçar a segurança dos mais de 2 mil quilômetros de fronteira com a Venezuela. Ele também é contrário ao acordo de paz assinado por Santos e as Farc (as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), em 2016. 

A situação na Colômbia é muito específica, mas acrescenta elementos importantes ao quadro estratégico sul-americano. O plano de paz precisa ser plenamente implementado, além de haver um flerte frequente de potências militares com o país. 

Em 1999, os EUA iniciaram o chamado Plano Colômbia, cujo propósito era intensificar a luta contra o tráfico de cocaína. O projeto despejou mais de 10 bilhões de dólares no país e não conseguiu interromper o tráfico de drogas. Entre 2015 e 2016, a produção de cocaína na Colômbia aumentou 52%. Há uma série de razões para isso, mas me interessa por ora debater os fatores que tornam a Colômbia muito relevante no cenário internacional. 

Há, de fato, um grande interesse em trazer os colombianos para perto. Não da América do Sul, mas de Europa e principalmente EUA. Agora, além da luta contra o tráfico de drogas, a Colômbia muda de patamar em suas alianças internacionais a partir do anúncio de seu presidente Santos de que o país será o primeiro latino-americano a integrar a Organização do Tratado do Atântico Norte (OTAN), a aliança militar ocidental. 

As autoridades venezuelanas rechaçaram o anúncio do país vizinho. E reagiram afirmando que o ingresso colombiano na aliança militar “constitui uma séria ameaça à paz e à estabilidade regional”. E, em que pesem os fracassos institucionais e humanitários domésticos da Venezuela, a coincidência de datas é de chamar a atenção: no dia 20 de maio Nicolás Maduro saiu vencedor em eleições condenadas internacionalmente. Apenas cinco dias depois, o presidente Juan Manuel Santos anunciava o ingresso colombiano na Otan. 

A sucessão dos fatos alimenta especulações. Vitória de Maduro, condenação internacional, anúncio de sanções americanas à Venezuela, adesão da Colômbia à aliança militar ocidental. É pouco provável que esses acontecimentos estejam desconectados. 

Isso não quer dizer que haverá intervenção militar na Venezuela, mas que há razões para se acreditar que os atores globais mais poderosos encontram na Colômbia uma porta de entrada para pressionar o regime do país vizinho. 

O segundo turno das eleições no país carrega todo este peso de discussões nacionais e regionais. Esquerda e direita, manutenção do acordo de paz com as Farc, refugiados venezuelanos, pressão sobre Caracas. São assuntos que podem determinar não apenas o destino da Colômbia, mas de toda a América do Sul.