Tropas russas podem substituir Irã e Hezbollah na fronteira com Israel

05 de Junho de 2018
Por Henry Galsky Parece que todos os acontecimentos foram combinados. Não foram, mas a sucessão de fatos que culminam nos momentos finais da vitória da Rússia, Bashar al-Assad, Hezbollah e Irã na estabilização da Síria a favor do presidente-ditador criam a impressão de que, no final, tudo está dando certo para quase todos os envolvidos. E, por incrível que possa parecer, mesmo para Israel. Ou melhor, especialmente para Israel.

Após ficar claro que o ex-presidente americano Barack Obama não faria nada de mais sério para interromper o uso de armamento químico contra a própria população por Bashar al-Assad, os russos entenderam que, dali por diante, os EUA não estavam de fato interessados em exercer protagonismo no Oriente Médio. Obama queria sim diplomacia, um acordo de paz entre israelenses e palestinos, a estabilização da região. Mas a Primavera Árabe mudou o quadro. Como escrevo por aqui, o Ocidente não teve reação à sucessão de acontecimentos porque estava amarrado às dinastias antidemocráticas que sempre apoiou. Quando essas lideranças foram caindo uma após a outra, não havia mais interlocutores.

Falência de estados no Oriente Médio

Esse espaço vazio foi preenchido rapidamente por organizações terroristas, como a al-Qaeda na Líbia, por exemplo, e pela geração Y do grupo de Osama Bin Laden, o Estado Islâmico (EI). Com estados falidos, a região provocou mais susto e temor do que uma reação organizada. Com a Síria em Guerra Civil, os europeus desistiram de vez do jogo, preferindo recorrer parcialmente ao ressurgimento de grupos e partidos de extrema-direita. Com a eleição de Donald Trump impulsionada pelos russos e pela Cambridge Analytica, os EUA também deixaram o Oriente Médio de lado. Esta era a plataforma de Donald Trump, estão lembrados?

E aí surge Vladimir Putin com seu plano – aparentemente muito bem-sucedido até aqui – de perpetuação doméstica e renascimento da grande Rússia. O Oriente Médio é parte fundamental do plano, e a Síria era o território mais óbvio. Não apenas protagonizaria a invenção do remédio para curar o drama de sua rival Europa (que preferiu se fechar a partir do fluxo cada vez maior de refugiados), mas garantiria os ativos de Moscou no território sírio (o porto de Tartus, por exemplo) graças à aliança histórica com a família ditatorial local, os Assad.

A Rússia no comando regional

Em setembro de 2015, a Rússia entrou na Guerra Civil síria para virar o jogo contra os “rebeldes” (um conjunto difuso e de difícil definição composto inclusive por grupos terroristas como a al-Qaeda) prometendo aos xiitas do Oriente Médio uma aliança repleta de benefícios. O Irã entrou nessa, apoiando os russos e Bashar al-Assad sonhando com seu projeto próprio de hegemonia regional. Até aqui, o plano iraniano funcionou sem maiores problemas. O país passou a ser protagonista em três dos países da região, Iêmen, Líbano e Síria. Mas então veio o dia 10 de fevereiro, quando os iranianos decidiram iniciar o planejamento para o qual vinham se preparando: atacar Israel.

Neste dia, um drone iraniano sobrevoou por um minuto o espaço aéreo do estado judeu até ser destruído por um helicóptero de combate. A partir daí, todo mundo sabe o que aconteceu; mesmo sem admitir, os israelenses empreenderam uma série de punições militares, chegando a ponto de destruir parte considerável da infraestrutura iraniana construída em território sírio.

Comprar o projeto iraniano integralmente ou lutar pelos próprios objetivos mais amplos?

Aos russos restava um dilema (possivelmente não era um dilema prático, tão somente conceitual na medida em que sua resposta já estava dada desde o princípio): entrar no confronto assumindo o risco de uma guerra aberta com Israel na defesa do objetivo estratégico iraniano de se estender entre Teerã e o Mar Mediterrâneo? Ou compor com Israel, recuar os iranianos até o ponto possível e assegurar que os israelenses não se considerassem sob ameaça de seus principais inimigos regionais, evitando assim perder todos as conquistas obtidas nos últimos três anos no propósito fundamental de Moscou de garantir a manutenção da unidade síria sob a liderança do ditador-presidente Bashar al-Assad?

Esta resposta parece estar a caminho de ser dada depois que o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, se encontrou com seu colega Sergey Shoygu na capital russa. De acordo com a Associated Press citando fontes do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, organização não-governamental estabelecida no Reino Unido, os russos estariam empenhados em retirar tropas iranianas, milícias xiitas pulverizadas e soldados do Hezbollah libanês da parte síria das Colinas de Golan na fronteira com Israel.

A aliança entre Rússia e Israel

Israel nega qualquer acordo e insiste que não aceitará qualquer solução que garanta a retirada integral de qualquer força, agente ou base do Irã da Síria. Esta é a posição oficial dos israelenses, mas é possível imaginar alguma forma de acomodação por parte de Jerusalém para garantir a segurança de sua fronteira norte. 

Se de fato isto se concretizar – e há inúmeras razões para crer que a retirada esteja em consonância com os interesses geopolíticos da Rússia na região, conforme expliquei detalhadamente no texto –, esta poderá ser considerada uma grande e ampla vitória do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Israel tem, neste ponto especificamente, uma espécie de dívida de gratidão em relação ao pragmatismo de Vladimir Putin. O projeto da Rússia de atuar e ser reconhecida como a nova superpotência do Oriente Médio – e seu único e livre acesso a todos os atores envolvidos – transformou a relação entre russos e israelenses num modelo ideal – até aqui – e muito raro capaz de resultar na chamada equação “ganha-ganha”.

Aos russos é importante a obtenção do reconhecimento por parte de Israel, o ator militar mais temido da região. As constantes negociações entre essas duas potências deu a Putin um acesso antes restrito aos americanos. A Israel, por outro lado, a aproximação com Moscou confere a possibilidade de estabelecimento de “negociações” indiretas com seu inimigo regional mais antagônico, o Irã.

A Rússia quer se estabelecer no Oriente Médio, quer retomar seu protagonismo. E, para isso, como sempre escrevo, não pode abrir mão dos grandes investimentos humanos, políticos e militares já realizados na Síria desde setembro de 2015.

O episódio do drone iraniano em território israelense levou o estado judeu a enviar um recado claro aos russos: ou agem na contenção de seus aliados na Síria ou correm o risco evidente de perder a estabilidade conquistada a muito custo.

Assim, se de fato os iranianos, as milícias xiitas e o Hezbollah forem substituídos por tropas russas na fronteira com Israel, é possível que o governo em Jerusalém considere o assunto resolvido, mesmo que temporariamente. E a garantia de estabilidade na fronteira configura a maior vitória de Benjamin Netanyahu a pouco menos de um ano e meio da realização de eleições gerais.