A partir dos confrontos em Gaza, Israel enfrenta alguns de seus principais dilemas estratégicos

08 de Junho de 2018
Por Henry Galsky Apesar das novas ondas de hostilidade entre Israel e Hamas, é possível que Jerusalém tenha intenção de adotar uma visão mais pragmática sobre o grupo terrorista. Antes de firmar opiniões sobre isso, é preciso entender as consequência e o jogo de bastidores. Neste momento, há aparente desejo comum dos dois lados de evitar a escalada rumo ao conflito amplo, mas o Hamas vive um misto de complacência e dificuldades para evitar o lançamento de pipas e balões incendiários sobre o sul do território israelense ao mesmo tempo em que mantém as manifestações em Gaza. 

Pode parecer brincadeira, mas não é. De abril até agora, houve mais de 260 grandes e médios incêndios em florestas e comunidades israelenses graças a este novo instrumento de ataque. A estimativa é que os incêndios tenham causado prejuízo tão profundo sobre as florestas que o meio ambiente local levará até três decadas para retomar a situação anterior. 

Instabilidade no sul de Israel e vazio político palestino

Ao contrário da situação estratégica que caminha para possível estabilização no norte de Israel, a situação no sul é diferente. Os episódios de violência que marcaram as manifestações palestinas chamadas de “Marcha do Retorno” expuseram Israel na arena internacional da forma mais grave desde a guerra travada justamente contra o Hamas há quatro anos. 

Simultaneamente, existe a noção de que o Hamas é a peça-chave do conflito. O presidente palestino, Mahmoud Abbas, é carta praticamente fora do baralho. Aos 83 anos e com a saúde fragilizada, não é mais um jogador relevante. No entanto, sua morte pode sim causar uma briga interna pela sucessão, exatamente como ocorreu com seu antecessor, Yasser Arafat. 

Por ora, no entanto, há algumas possibilidades para lidar com o Hamas sendo discutidas em Jerusalém; a primeira delas é a a destruição do grupo, alternativa controversa no governo, uma vez que os estrategistas militares e políticos sabem o tamanho do prejuízo e das vidas a serem perdidas num conflito “definitivo” (entre muitas aspas). É pouco provável que esta opção seja considerada como solução razoável, e o Oriente Médio sabe bem disso – não funcionou com a al-Qaeda, com o Estado Islâmico e provavelmente não irá funcionar com o Hamas. Não se destrói um conceito. Ele ressurge ininterruptamente das cinzas. 

A outra ideia é um tabu de muitas consequências políticas e está diretamente relacionada ao pragmatismo que apresentei na abertura deste texto: o diálogo com o Hamas. 

Novo ciclo de instabilidade deve ocorrer após a morte de Mahmoud Abbas

Israel não negocia com grupos terroristas. Esta é uma posição inflexível e histórica. Mas negociou com Arafat, idealizador do nacionalismo palestino e diretamente envolvido em muitas operações contra Israel antes de se transformar na figura política central palestina. Vieram os Acordos de Olso de 1993 e a fundação e reconhecimento conjunto por israelenses e palestinos da Autoridade Palestina (AP), a entidade nacional criada para negociar e ser o primeiro passo rumo à criação de um estado palestino. 

A morte de Arafat em 2004 mudou a história. A centralidade do próprio Arafat foi um dos muitos elementos a inviabilizar a criação de um ambiente democrático. Sua sucessão se transformou numa guerra fratricida interna. Em Gaza, o Hamas assassinou membros da Autoridade Palestina até tomar de vez o território. O resto quem acompanha o site já sabe. 

Na prática, não há um estado palestino, mas dois semiestados, um em Gaza, controlado pelo Hamas, e outro na Cisjordânia, controlado pela Autoridade Palestina. Um é antagônico ao outro. A ponto de a crise de eletricidade em Gaza ter sido causada pela facção de Mahmoud Abbas como forma de punir o Hamas. 

Em Israel, com Abbas enfraquecido e o sul do país em constante ameaça pelo Hamas, amadurece silenciosamente a possibilidade de diálogo com o Hamas. 

As exigências israelenses para acomodar a situação com o Hamas

Alon Ben David escreve no jornal Maariv um artigo que resume os pontos principais das demandas israelenses ao Hamas: o estado judeu teria renunciado a duas de suas exigências principais – o completo desarmamento do grupo terrorista e o retorno da Autoridade Palestina a Gaza. 

Em troca de uma trégua duradoura, Israel e Egito reduziriam as restrições impostas pelo bloqueio ao território desde que o Hamas não fizesse uso dessas medidas como forma de fortalecimento da ala militar. Nesta trégua, Israel exigiria a completa interrupção do lançamento de mísseis e da escavação de túneis, o banimento do acesso a áreas a oeste da cerca que separa Israel de Gaza e o retorno de cidadãos israelenses que estão desaparecidos ou em poder do Hamas. 

Não se sabe ainda se este tipo de negociação irá prosseguir ou se apresentará resultados. Mas o pragmatismo israelense tem como consequência direta o isolamento da AP. Para ser muito claro, possivelmente às vésperas da morte de seu presidente, Mahmoud Abbas. A eventual decisão israelense de “negociar” com o Hamas pode se transformar num futuro breve na ponte de passagem do grupo de Gaza para a Cisjordânia, o que, aí sim, colocaria em ameaça direta 56% da população israelense (4% vivem em assentamentos na Cisjordânia, 40%, na região central do país, e 12%, na capital Jerusalém). 

Este é um nó complicado de ser desfeito. E, apesar das vitórias no norte do país, na mediação bem-sucedida aparentemente consolidada pela Rússia na Síria para conter o Irã, a situação no sul se tornou o principal problema estratégico israelense. Talvez dialogar com o Hamas indiretamente consiga interromper a sensação de descontrole a partir dos acontecimentos em Gaza. Talvez esta solução seja apenas temporária, na medida em que se comprometer com o Hamas pode se transformar no pior pesadelo israelense: a transposição empoderada do grupo e de seu patrocinador principal, o Irã, para a Cisjordânia. Bem ao lado de Jerusalém e na porta de entrada do principal centro populacional de Israel.