Por que os EUA encaram Coreia do Norte e Irã de maneira diferente

15 de Junho de 2018
Por Henry Galsky Apesar de a abordagem à Coreia do Norte servir como parâmetro teórico para, entre outros aspectos, sustentar a decisão de retirada americana do acordo nuclear iraniano, as situações são diferentes. Os objetivos são distintos. Por mais que a ameaça norte-coreana seja considerada pela Casa Branca como igualmente perigosa, o programa nuclear do Irã é item fundamental e influente no palco mais relevante das relações internacionais. 

Mesmo que Washington esteja aos poucos repassando a liderança regional aos russos, os símbolos ainda são mantidos. Isso significa na prática o interesse real de manter também a assertividade nos pontos principais. E o acordo nuclear iraniano é um desses itens, em virtude, entre outros, da crítica severa de Donald Trump à assinatura do tratado pelo seu antecessor e rival permanente Barack Obama. 

Há uma grande contradição explícita na comparação entre a aproximação de Trump e Kim Jong Un e o acordo do qual o presidente americano se retirou assinado com o Irã; do encontro com o ditador norte-coreano, Trump obteve alguns compromissos verbais, superificiais e cuja verficação pode levar muito tempo para ocorrer, se de fato ocorrer. 

Por mais que simbolicamente a importância do encontro seja inegável, a fragilidade, desconfiança e incapacidade de verificação das armas nucleares do arsenal da Coreia do Norte ainda são os fatos sobre a mesa nas relações entre americanos e a comunidade internacional e o regime de Kim Jong Un. 

Ao contrário do Irã. Ainda que Trump seja um crítico histórico do acordo assinado por Obama, é inquestionável que o documento é composto por uma série de mecanismos de controle, exigências de acesso e verificação. 

Mas, como escrevi, os objetivos são distintos. Na Coreia do Norte, a relação parece bastar. Mesmo que haja algum compromisso entre os dois líderes, a pretensão final americana no Irã é outra, a queda do regime. Há um entendimento cada vez maior – especialmente entre Israel e EUA – de que o regime atual está com os dias contados. 

Já escrevi em outros textos sobre a situação de profunda crise no Irã: economia, mercado de trabalho e até no fornecimento de água à população. Talvez um acordo nos moldes do que a atual administração americana imagina como ideal alcançasse resultados positivos para a Casa Branca. Mas nenhum entendimento se iguala à possibilidade – encarada cada vez mais como real – de queda do regime. 

E aí é muito mais simples negociar com a Coreia do Norte do que com o Irã. Isso porque a legitimidade de Kim Jong Un não está sendo contestada. A oposição não existe. Os norte-coreanos no exterior são muito poucos, desorganizados e irrelevantes para influenciar minimamente a condução do país. 

No caso iraniano a situação é completamente diferente; existe uma comunidade iraniana organizada no exílio, intelectuais, vozes dissonantes. E mesmo internamente, apesar da profunda repressão doméstica, o regime enfrenta ondas de protestos periódicos. Todos esses elementos, aliados às crises que o país atravessa, permitem aos antagonistas internacionais do regime imaginar que é possível um futuro em que os iranianos não sejam mais governados pelo modelo instalado no país desde a chamada Revolução Islâmica de 1979. 

Todas essas questões são fundamentais na compreensão das distintas formas de abordagem americana sobre Coreia do Norte e Irã. Voltarei a este assunto mais adiante, mostrando as pré-condições exigidas por iranianos a europeus e também americanos a iranianos para encontrar alguma forma de acomodação entre essas partes – muito emboras essas pré-condições não sejam nada além de argumentos para a manutenção de suas próprias posições.