A pauta da extrema-direita pode derrubar Angela Merkel na Alemanha

19 de Junho de 2018
Por Henry Galsky A chanceler alemã, Angela Merkel, enfrenta agora um drama capaz de dissolver seu governo. A situação resume uma das questões deste século e deixa claro que a mais liberal das lideranças democráticas atuais também está enquadrada e sob pressão. O fogo amigo é causado por seu ministro do interior, Horst Seehofer.

Seehofer e Merkel são aliados no modelo parlamentarista. Ambos formam a principal coalizão partidária alemã, chamada apenas de União. Ela representa a conexão entre as duas mais bem-sucedidas legendas do país, a União Social Cristã (CSU), liderada por Seehofer, e a União Democrática Cristã (CDU), liderada por Merkel. 

Este é o equilíbrio de forças que mantém o governo federal alemão sob a liderança da chanceler. No campo internacional, Merkel é fortalecida pelo enfraquecimento da legitimidade americana entre seus pares europeus. 

Graças ao acentuamento da extrema-direita internacional, inclusive em Washington, a líder alemã simboliza um mundo que se transforma rapidamente. A coalizão democrática que moldou as relações internacionais no pós-guerra – sustentada em boa medida pela aliança entre a Europa e os EUA – está sob ameaça. 

E agora a principal liderança restante está fragilizada pelo principal foco de desestruturação regional, a discussão sobre imigração. 

Angela Merkel tem uma posição firme sobre os imigrantes: sua política de fronteiras abertas é uma exceção diante dos vizinhos e de tantos países europeus que recorreram aos próprios nacionalismos como resposta. 

Para a chanceler alemã, a solução deve ser encontrada como parte do projeto conjunto, a União Europeia (UE). Seehofer, o adversário interno, acredita que os imigrantes devem ser barrados, decisão que, de acordo com Merkel, pode prejudicar dois dos países economicamente mais vulneráveis do bloco, Grécia e Itália. 

Apesar da coerência com seu posicionamento recente sobre o assunto, o entendimento de Merkel já precisou ser flexibilizado para que ela pudesse sobreviver politicamente à pressão.

 Assim, em 2016, seu governo alterou o regulamento para pedido de asilo, estabelecendo alguns dos países de origem do fluxo migratório como “seguros”. Nestes casos, pessoas chegando à Alemanha não se enquadrariam mais como refugiados, uma vez que estariam deixando países teoricamente seguros em busca de simples imigração na Alemanha. 

O partido CSU, de Seehofer, existe apenas na Baviera, o maior estado alemão em área. O CSU governa o estado desde 1957, mas tem visto sua popularidade local cair em função, entre outros, dos debates em torno dos refugiados. Com 12,5 milhões de habitantes, a Baviera tem o segundo PIB do país e abriga as sedes de algumas das principais empresas alemãs, como Allianz, Audi, Adidas, Puma e BMW. 

A dor de cabeça comum a Merkel e Seehofer é o partido de extrema-direita, o Alternatativa para a Alemanha. A legenda se beneficia diretamente da queda de popularidade do CSU na Baviera e conseguiu criar um problema para a União. 

A agência de notícias AP informa que Seehofer deu a Markel um prazo até o final do mês para que ela elabore um plano conjunto com a União Europeia dando destino aos refugiados e imigrantes na Alemanha. 

A mudança de rumos na maior economia do bloco e principal liderança regional pode marcar uma guinada muito relevante da Europa à extrema-direita. Com Trump presidente dos EUA, se Merkel cair, a liderança democrática e interessada na construção do multilateralismo se tornará um cargo vago. E não se sabe se será preenchido.