A América de Trump

25 de Junho de 2018
Por Henry Galsky Talvez esses sejam os dias em que assistimos às maiores manifestações em torno – e possivelmente contrárias – ao presidente americano, Donald Trump. A política de separação de menores dos pais que cruzam a fronteira dos EUA produziram imagens, casos e situações reais de comoção internacional. Para além das discussões objetivas, as histórias envolvendo crianças detidas distantes dos pais provocam emoção. E esta é uma força capaz de afetar a forma de se fazer política em Washington e em qualquer lugar.

Trump está agindo como seus eleitores queriam. Lembre-se que Trump foi o candidato que reclamava da política internacional americana, dizia que os EUA gastavam demais “sustentado” aliados da Otan que não davam nada em troca. O presidente acredita na teoria do “producerism” – sobre a qual escrevi longamente por aqui -,a ideia de que existe uma extratificação da sociedade entre “os que trabalham e produzem” e aqueles que “se aproveitam do trabalho e do Estado”.

Este presidente segue exatamente a cartilha do “producerism”. Não há compaixão por imigrantes, mas a visão de que imigrantes ameaçam a sociedade do trabalho e se acumulam de forma a exigir que o Estado os sustente. Esta não é apenas a linha de raciocínio do presidente, mas de boa parte de seus eleitores.

Trump não apenas quer desmontar acordos e estrutura criados pelo antecessor Barack Obama, mas crê ser possível refundar os EUA sobre novas bases. Estas bases partem do princípio de que a relação americana com o resto do mundo precisa ser estabelecida por meio de trocas – possivelmente econômicas – negando plenamente tudo o que possa ser entendido como "concessão" ou “perda”.

Desta maneira, a etiquetagem de “perda” e “concessão” é ampla o bastante para justificar a saída de acordos, o rompimento de relações e o abandono de projetos. O acordo do clima é perda – de empregos dos carvoeiros do Tennessee (como costumo escrever desde a posse. Este argumento sustenta um conceito principal que se baseia numa entrevista da deputada republicana Marsha Blackburn).

O Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP) era “perda” e “concessão”. O acordo nuclear com o Irã era “concessão”. A sobretaxa de importações de aço e alumínio é uma maneira de correção de “perda” e “concessão”. E por aí segue o governo americano atual.

Por isso não é exatamente uma surpresa os acontecimentos na fronteira que culminaram com a separação de 2.300 crianças de seus pais. Trump tem uma maneira de governar determinada a “reformar” os EUA. A mudar a América do imaginário internacional, dos presidentes democratas e republicanos que pensaram e realizaram a América histórica, alterando-a para a América de Donald Trump. A ideia de refundação não é nova e já houve várias lideranças internacionais que se perceberam a si próprios como dignos de uma missão ampla e restauradora.

Hoje, este fenômeno tem sido chamado de populismo. O fechamento de fronteiras, a obsessão pelos mitos fundadores nacionais e, entre outros, o questionamento da globalização.

Este é um período de transição onde as lideranças interessadas no multilateralismo têm sofrido as consequências em seguidas derrotas políticas. Isso está em curso na Europa oriental, mas também na Itália e cada vez mais esses grupos têm obtido  vitórias na França, Grã-Bretanha, na Holanda e na Alemanha. A pressão desses grupos na Alemanha foi tema de um texto recente aqui no site. A ponto de colocar em xeque a principal liderança multilateral do mundo contemporâneo, a chanceler Angela Merkel.

Este populismo está no poder hoje no país mais poderoso do mundo. Ao partir em visita a um centro de detenção de crianças imigrantes desacompanhadas de seus pais, a primeira-dama Melania Trump estava vestida com  uma jaqueta onde se lia a mensagem “eu realmente não me importo, você se importa?”. O texto deixa claro o que pensa a respeito. Talvez o propósito fosse reafirmar o compromisso do casal com o “producerism” que tanto agrada aos eleitores responsáveis por levar Trump e Melania à Casa Branca.