O novo pai dos turcos

29 de Junho de 2018
Por Henry Galsky Na foto, Erdogan e a imagem de Mustafá Kemal Ataturk ao fundo


Recep Tayyip Erdogan é novamente o grande vitorioso das eleições turcas. Em meio à Copa do Mundo, o assunto não foi objeto de maiores análises, mas a Turquia é um dos principais atores não apenas no Oriente Médio, mas na Europa. Seu líder se percebe como alguém cuja missão se estende para além das fronteiras do país, almejando a percepção de “paternidade” entre os muçulmanos de todo o mundo.

A Turquia é um país que, assim como parte da europa central, oriental, Rússia e os EUA de Trump, tem no nacionalismo o motor de mudanças e arbítrios para justificar exceções e emendas constitucionais internas e, ao mesmo tempo, questionar a globalização. 

Como escrevi em meu último texto sobre Donald Trump e a polêmica forma de atuação em sua fronteira sul, esses regimes encontraram no nacionalismo a resposta para os dilemas globais –  e a consequente aproximação com governos pautados pelas mesmas diretrizes.

No poder desde 2003 – quando se tornou primeiro-ministro pela primeira vez –, Erdogan já ordenou a prisão de dezenas de jornalistas, opositores e até processou cidadãos que publicaram comentários críticos a seu governo e ao seu modo de atuação política.

No ano passado, sobreviveu a uma tentativa de golpe. A reviravolta de sucesso culminou na manobra de alterar a constituição, transformando o regime para presidencialismo, permitindo-o se manter na liderança do executivo. Depois de eleito presidente nesta última semana, já se sabe que Erdogan será o presidente turco durante o ano de comemoração do centenário da fundação da República, em 2023, podendo inclusive ser reeleito até 2028.

Há muitos fatores a explicar seu sucesso. Além da máquina do Estado nas mãos desde 2003, a economia, apesar de o momento atual ser ruim, permitiu ascensão social e uma vida confortável à boa parte da população.

Nos primeiros quatro anos de domínio de seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), entre 2002 e 2006, o país passou a crescer a uma taxa anual de 7,2%. Erdogan é um especialista na promessa e na execução de grandes projetos e obras. Depois de parques, rodovias e linhas férreas (inclusive um trem de alta velocidade conectando os 533 quilômetros entre Istambul e a capital Ancara), a próxima ambição é a conexão entre o Mar Negro e o Mar de Mármara por meio de um canal.  

Nesses 15 anos, o presidente mudou de estratégia. Do político moderno que parecia interessado na aproximação com o ocidente, especialmente com a União Europeia (UE), seguiu caminho no sentido contrário ao se aliar com a Rússia na Síria – percebendo a posição protagonista do país no novo Oriente Médio – e aumentou os esforços para ser amado no mundo islâmico em suas lutas mais populares (assumindo cada vez mais posições contra Israel, por exemplo).

Internamente, além da estratégia permanente de personalizar a busca pelo “renascimento” otomano, aliou-se ao Partido do Movimento Nacionalista (MHP), legenda xenófoba e antagônica às minorias turcas – os curdos especialmente.

Erdogan tem o propósito dos líderes autocentrados interessados na longevidade de mandatos, mas também na construção dos mitos em torno de si. Este é o caminho seguido não apenas pelo presidente turco, para ser justo, mas por personalidades tão diversas quanto Viktor Orban, na Hungria, Donald Trump, nos EUA, e, claro, o ícone de maior sucesso entre esta nova-velha linha de líderes nacionalistas, o presidente russo Vladimir Putin.

Assim, ao longo dos 15 últimos anos, Erdogan percebe e se transforma a partir do movimento global. No início do século 21, multilateralismo; no final da segunda década, populismo, nacionalismo e questionamentos à globalização.

Mas aí o líder turco inclui as características peculiares ao seu entorno. Interpreta – e é possível mesmo que acredite nisso – o papel de “sucessor” do próprio fundador da república, Mustafá Kemal Pasha. Assim como os líderes nacionalistas que se reproduzem em larga escala nos dias de hoje, ele se vê como parte de uma missão maior, possivelmente até divina.
 
A semelhança com Mustafá Kemal Paxá, que em 29 de outubro de 1923 proclamou a República da Turquia, está no nacionalismo. E no sobrenome que o parlamento concedeu a Pashá em 1934 e pelo qual seria conhecido em todo o mundo, Ataturk (o “pai dos turcos”). É evidente que Erdogan quer ir além, quer ser o pai dos muçulmanos, o defensor de seu povo num mundo hostil e desequilibrado, entre outros fatores, pelas desigualdades da globalização.
 
Ao contrário de Ataturk, no entanto, Erdogan quer seguir no sentido oposto; o fundador da república modernizou o estado e estabeleceu a primeira república entre os países muçulmanos. 

O atual presidente está interessado em sua própria versão do Império Otomano, com o qual Kemal Ataturk fez questão de romper. Em seu processo de recriação de mitos, Recep Tayyip Erdogan parece crer ser o único capaz de ajustar as contas entre passado, presente e futuro. Esta é a sua missão.