O novo presidente de esquerda do México

03 de Julho de 2018
Por Henry Galsky O México tem um novo presidente, o político de esquerda Andrés Manuel López Obrador ou apenas AMLO como é conhecido. Crítico da atual administração de Enrique Peña Nieto, López Obrador já foi prefeito da cidade do México e tem se mantido relevante politicamente há décadas. Tentou se eleger presidente por três vezes e, nesta última, foi bem-sucedido.
Entre seus desafios, o combate à pobreza, desigualdade e violência. 

Num momento de discussão sobre imigração, o tema também esteve presente no debate eleitoral, mas este era um ponto comum a todos os candidatos – todos discordam de Trump e da política adotada na fronteira sul com o México. E, assim, também expuseram críticas ao posicionamento do governo atual do presidente Enrique Peña Nieto. 

As crises migratórias e suas consequências são pautas permanentes das discussões políticas nacionais. As decisões de Peña Nieto seguiram as diretrizes presidenciais dos EUA. Para ser justo, não apenas de Trump, mas também de seu antecessor, Barack Obama. 

Hoje, ao contrário do que se imagina, o número de mexicanos tentando cruzar a fronteira americana ilegalmente está em queda acentuada. Dos cerca de 1,6 milhão no início dos anos 2000, caiu para 130 mil no ano passado. O governo mexicano realiza um trabalho rigoroso de perseguição e deportação de cidadãos dos países da América Central que buscam o território do país 
como ponto de passagem para os EUA. 

Em agosto de 2016, o então candidato Trump esteve em visita ao México. E, em conferência de imprensa conjunta, Peña Nieto fez questão de deixar claro que estava contribuindo para impedir o fluxo migratório de latino-americanos aos EUA. Trump já sinalizava sua intenção de construir o muro na fronteira e exigir que o governo mexicano arcasse com os custos. 

A estratégia do presidente mexicano era reforçar que o país não deveria ser estigmatizado. Mas não funcionou. Oitenta e oito porcento de entrevistados pelo jornal El Universal se consideraram ofendidos pela visita de Trump e também pela posição do presidente Peña Nieto – que saiu do episódio marcado por um comportamento julgado pelos eleitores como submisso. 

AMLO, o presidente eleito, deve seguir rumo distinto. Promete inclusive rever e até reverter a política de energia do antecessor, que abriu o setor de petróleo e gás para investimento privado. É interessante assistir ao comportamento do novo presidente, uma vez que este também é um assunto que deverá ser amplamente – e intensamente – discutido durante a campanha presidencial no Brasil. 

Nas relações com os americanos especialmente, o novo presidente também não deve se esforçar ao máximo para salvar o NAFTA, o acordo de livre comércio entre México, EUA e Canadá em vigor desde dezembro de 1993. Assim como tem agido em outros fóruns, o presidente Trump também pôs em xeque o tratado. Sua promessa é considerar a possibilidade de assinar um novo modelo de NAFTA apenas depois das eleições de novembro nos EUA. Em conversa por telefone com AMLO, propôs que EUA e México trabalhem diretamente para concretizar uma negociação de comércio bilateral entre os dois países. 

López Obrador é considerado um nacional-desenvolvimentista clássico. Pode inclusive ter em mente uma aproximação maior com países da América Latina do que com seus vizinhos do norte. Assim, não seria surpreendente se, num cenário posterior às eleições de outubro por aqui, AMLO procurasse intensificar relações com o Brasil – imaginando, claro, a posse em janeiro de 2019 de um governo com alguma legitimidade em Brasília. 

O novo presidente mexicano tem desafios como pontuei acima, mas assumirá suas funções a partir de realidade econômica bem estruturada. Entre 1994 e 2018, a taxa anual média de crescimento do PIB foi de 2,48%. O índice de desemprego caiu de 3,6% para 3,2% em maio deste ano, e a inflação anual foi de 4,51%.