O “acordo do século” para israelenses e palestinos – segundo Donald Trump

11 de Julho de 2018
Por Henry Galsky Há grande expectativa sobre a possibilidade de o governo Trump apresentar um plano de paz em breve para retomar as negociações entre israelenses e palestinos. Trump chama este projeto de “o acordo final” ou “o acordo do século”. O presidente americano tem especial interesse no assunto, o nó internacional a ser desatado que provoca, como a espada do Rei Artur, as maiores ambições de sucessivas lideranças, inclusive de seu antecessor e rival permanente Barack Obama.
 
No entanto, há também muitos empecilhos para a retomada das negociações. O primeiro deles é a confiança dos palestinos – especialmente os representantes oficiais da Autoridade Palestina (AP) – no papel por parte deste governo americano de mediador do processo.

Em dezembro de 2017, Donald Trump anunciou em Washington a decisão de transferir a embaixada americana em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. A retórica se transformou em prática em maio deste ano sob protestos veementes dos palestinos – parte dos protestos realizado ou cooptado pelo Hamas em Gaza ocorreu sob este argumento, muito embora a sequência de enfrentamentos com o exército israelense na fronteira entre Gaza e Israel já tivesse sido planejada anteriormente. 

Há alguns pontos que cercam as possibilidades e principalmente impossibilidades do momento atual. Um deles está relacionado à disputa de poder interno entre os palestinos, especialmente entre o presidente palestino, Mahmoud Abbas, representante oficial e reconhecido internacionalmente da Autoridade Palestina (AP), e o grupo terrorista Hamas. 

As várias tentativas entre os dois lados de reconciliação interna permanecem infrutíferas. E, na prática, depois de a AP ter sido expulsa de Gaza pelo Hamas em 2007, essas duas entidades têm posições opostas e controlam territórios distintos. O Hamas tem soberania integral no interior da Faixa de Gaza; a AP, parcialmente na Cisjordânia. 

Em março deste ano, o primeiro-ministro palestino, Rami Hamdallah, sofreu tentativa de assassinato quando visitava a Faixa de Gaza. A AP acusa o Hamas pelo ato cujo propósito, de acordo com Mahmoud Abbas, seria impedir o prosseguimento do processo de reconciliação interna palestina. A AP pretende reunificar os territórios palestinos na mesma configuração existente antes da expulsão de seus membros pelo Hamas, governando desta maneira Gaza e Cisjordânia. O Hamas não pretende retornar a este ponto. 

Esta disputa interna palestina tem levado o presidente Mahmoud Abbas a impedir o repasse de salários a funcionários públicos palestinos e cortar o fornecimento de eletricidade e suprimentos médicos a Gaza. A ideia é forçar o Hamas a desistir de suas ambições estratégicas. 

E é neste ponto que o plano de paz do governo Trump se apresenta no Oriente Médio. O assessor sênior e genro do presidente, Jared Kushner, e o enviado para o Oriente Médio, Jason Greenblatt, estão em contato permanente com lideranças regionais em busca de recursos para costurar um plano capaz de amenizar a situação de colapso na Faixa de Gaza. E, a partir disso, apresentar este chamado “acordo do século”. 

As informações preliminares dão conta de que oficiais americanos estariam em busca de 500 milhões de dólares das monarquias do Golfo Pérsico para financiar a reconstrução de Gaza. Haveria a possibilidade de criação de infraestrutura no norte do Deserto do Sinai egípcio, que incluiria duas usinas (uma de dessalinização da água, outra para produção de energia solar) e até um porto destinado a receber e exportar produção palestina – este último seria estabelecido no Chipre. 

Seja como for, se realmente confirmado, o projeto em sua configuração ampla representaria um olhar absolutamente novo no contexto dos planos apresentados até hoje para solucionar ou ao menos impedir o progresso dos conflitos entre israelenses e palestinos. 

No entanto, como escrevi, se concretizado, este plano teria consequências políticas importantes. E a primeira delas é o isolamento da AP, que passaria a ser figura irrelevante na política palestina e no processo de interação regional. Se as monarquias sunitas aderirem ao plano da forma como ele parece se desdobrar, o protagonismo palestino passaria a ser da entidade que hoje de fato administra a Faixa de Gaza; o Hamas, portanto. 

No plano regional, outra dúvida seria a questão quanto ao destino da Cisjordânia. Num cenário de liderança prática palestina por parte do Hamas com a AP em franco colapso, a quem ficaria a responsabilidade governamental neste território? Haveria uma nova liderança palestina (hoje inexistente numa Cisjordânia parcialmente administrada com mão-de-ferro por Mahmoud Abbas)? Israel assumiria o controle integral do território? Ou os jordanianos estariam dispostos a participar de alguma maneira deste processo? Como reagiriam os palestinos que vivem nesta região? 

Sob o ponto de vista americano, o plano decretaria a morte dos já finados Acordos de Oslo, assinados em 1993 pelo então primeiro-ministro israelense Itzhak Rabin, pelo então presidente americano Bill Clinton e pelo então presidente da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat. 

Ou seja, se este for mesmo o “acordo do século” e se de fato este acordo for posto em prática, ele tem o enorme poder de uma só vez derrotar o histórico de atuação internacional dos EUA no Oriente Médio, a maior conquista do partido Democrata na região, a posição histórica da esquerda israelense em seu principal projeto político e, finalmente, causar o fim ou o enfraquecimento fundamental da própria AP. 

Resta saber se o “acordo do século” tem exatamente essas configurações, se ele é flexível e como os atores regionais irão reagir quando ou se ele for apresentado formalmente.