O ambiente regional em torno do “Acordo do Século”

13 de Julho de 2018
Por Henry Galsky Em complementação ao último texto, considero importante estabelecer alguns parâmetros e análises sobre o chamado “acordo final” ou “acordo do século” prometido pela administração Trump. Não se trata de um processo banal, mas, pelo contrário, um ponto que pode marcar a ruptura da tradicional abordagem americana sobre o Oriente Médio de forma ampla e sobre o conflito israelense-palestino de maneira particular. 

É evidente que há uma rota pensada pela Casa Branca para apresentar o plano ou mesmo sentir a temperatura do ambiente. Esta rota inclui viagens dos enviados Jared Kushner e Jason Greenblatt para além dos atores regionais diretamente interessados – israelenses e palestinos. 

Nos Acordos de Oslo – considerado métrica principal deste esforço americano atual –, nomeavam-se os passos rumo à construção de confiança entre as partes e medidas preliminares como “road map”, mapa do caminho – expressão comum não apenas a esta circunstância das relações internacionais, importante dizer. 

O mapa do caminho atual envolve o percurso que Kushner e Greenblatt têm realizado pelas principais capitais dos aliados árabes sunitas no Oriente Médio e também pelo Catar – faço esta observação sobre o Catar porque este ator passou a manter relações complicadas e antagônicas com as demais monarquias da região, aproximando-se do Irã, além de aliança tradicional com o Hamas, grupo terrorista que controla a Faixa de Gaza. 

É justamente de um cidadão do país, Muhammad Amadi, enviado especial do Catar a Gaza, a informação de que Israel e o Hamas estariam em contato indireto sobre a situação de colapso no território costeiro palestino. De acordo com Amadi, em entrevista à agência chinesa Xinhua, os Estados Unidos teriam conhecimento sobre esses contatos, o que reforçaria ainda mais os argumentos que expus em meu texto anterior. 

Ou seja, seguindo o raciocínio deste texto atual e do anterior, se confirmados, os elementos que sustentam esta nova lógica americana e seu “acordo do século” ou “acordo final” estão todos expostos. 

Washington procuraria, portanto, viabilizar alguma forma de negociação e posterior acomodação entre israelenses e palestinos costurando um entendimento entre Hamas, Israel e as monarquias sunitas do Golfo Pérsico apesar da franca oposição da Autoridade Palestina (AP). 

A ideia quanto à possibilidade de se chegar a alguma forma de entendimento – mesmo provisoriamente – de “fora para dentro” é até bastante coerente com o modelo de atuação do atual governo americano. Esta lógica estabelece que, diante de um obstáculo (papel por ora exercido pela AP), o sucesso pode e deve ser encontrado a partir de uma eventual substituição ou superposição. 

Na prática, esta é uma decisão que parece ter sido tomada pela indisponibilidade da AP em negociar com os americanos ao questionar repetidamente a legitimidade do governo Trump na mediação deste conflito. O impasse entre AP e EUA foi encarado por ambas as partes como uma espécie de “ida” ao mercado internacional de alianças. Como se poderia imaginar, os palestinos e seu presidente Mahmoud Abbas tiveram por enquanto menos sucesso que os membros do governo Trump. 

A medição de forças levou os EUA a fazerem uso com ainda mais intensidade da histórica proximidade com as monarquias sunitas do Golfo – aparentemente cada vez menos interessadas no conflito entre israelenses e palestinos em função da ameaça representada pelo Irã para a sobrevivência de seus próprios regimes. 

Esta é a dinâmica atual e é neste ambiente que o “acordo do século” parece estar em construção. 

Informação aos leitores: o site vai dar uma parada em julho. Entro de férias e retorno às análises por aqui na segunda semana de agosto.