Jeremy Corbyn e o antissemitismo

07 de Agosto de 2018
Por Henry Galsky O antissemitismo voltou a ser uma pauta importante na Europa. Especialmente na Grã-Bretanha, é um ponto de discussão nevrálgico num ambiente politicamente tenso. Desde que assumiu a liderança do Partido Trabalhista, em 2015, Jeremy Corbyn é seguidamente acusado de manifestações públicas de antissemitismo. Para ele, neste momento, este assunto é seu calcanhar de Aquiles, na medida em que pode muito em breve vir a formar o novo governo britânico.

Corbyn é esquivo na forma de responder, preferindo insistir no argumento muito vago de que se trata de uma “questão de política externa”. Não é. Os judeus na Grã-Bretanha não pensam desta maneira e se sentem seguidamente discriminados pelo líder trabalhista. A situação é tão grave que no ano passado o Partido Trabalhista conduziu investigação interna e concluiu que em suas fileiras há “bolsões de ignorância” em relação aos judeus e chegou a expulsar, em função de manifestações antissemitas, membros do partido.

O jornalista Anshel Pfeffer do israelense Haaretz escreveu um longo artigo a respeito de Corbyn e mencionou alguns dos itens em seu histórico: em 2010, organizou um evento no parlamento exatamente no Dia Internacional de Lembrança do Holocausto cujo título tinha o propósito de tornar equivalentes as ações nazistas contra os judeus na Segunda Guerra Mundial à forma de atuação israelense em relação aos palestinos em Gaza. Como lembra Pfeffer, no ano seguinte patrocinou moção parlamentar propondo que o Dia de Lembrança do Holocausto excluísse o termo Holocausto.

Em suas relações internacionais, lembra Pfeffer, mantém proximidade com a milícia xiita libanesa Hezbollah, com o grupo terrorista palestino Hamas e o regime iraniano (para quem trabalhou como comentarista na TV estatal) e prefere se manter distante de críticas às ações de Putin ou do ditador sírio Bashar al-Assad na guerra civil local que já vitimou meio milhão de pessoas.

Corbyn resume em si mesmo um enorme desafio das esquerdas em todo o mundo, que encontram parte de seus membros reproduzindo um olhar simplificado onde tudo é misturado mas ao mesmo tempo reduzido a um único argumento balizador: a luta dos “opressores” contra os “oprimidos”, da ideia de “resistência” ao “imperialismo”, dos “pobres” contra os “ricos”.

Esta noção superficial da realidade relegou aos judeus o papel permanente do opressor. E, em sua sequência, estabeleceu relações de paralelismo. Ao judeu entre as nações, o Estado de Israel, o monopólio da vilania. Aos judeus de todo o mundo, o resgate de mitos antissemitas usados no passado pela esquerda e pela direita; os judeus financistas, banqueiros, apátridas – mas ao mesmo tempo exclusivamente fieis a Israel –, os que não merecem qualquer solidariedade (a exceção cabe aos judeus que se colocam ao lado nas condenações unilaterais a Israel). É curioso notar que parece ser unicamente neste ponto – o antissemitismo – que a extrema-esquerda e a extrema-direita estão alinhadas. Ambos os grupos repetem exatamente os mesmos mantras.

Vale citar a exceção na forma de atuação da extrema-esquerda; a solidariedade aos judeus existe apenas e tão somente quando as acusações antissemitas partem da extrema-direita, dos nazistas; este é o momento único quando a extrema-esquerda se manifesta sobre o assunto, na medida em que o nazismo é seu contraponto político, ideológico e existencial mais óbvio.

“Jeremy Corbyn é a única liderança radical de extrema-esquerda e socialista à beira de chegar ao poder no ocidente. Se o Partido Trabalhista sob sua liderança vencer a próxima eleição geral, sua ideologia vai se tornar imensamente influente na Europa e nos EUA”, escreve Pfeffer.

Neste aspecto, o líder trabalhista representa um momento de grande polarização internacional. Da mesma maneira que Trump se tornou um símbolo da direita internacional e da ideologia sobre a qual já escrevi por aqui, o chamado Producerism, Corbyn tem potencial de se transformar num contraponto ao presidente americano, mas, curiosamente, estruturando-se conceitualmente sobre bases similares.

Para Trump e para os adeptos do Producerism – que chamei por aqui de Produtivismo – existe uma divisão clara da sociedade; os que produzem e trabalham e os que se aproveitam deste valor para viver às custas da obra alheia e, claro, do Estado. Para o Produtivismo, este extrato da população é formado em grande parte pelos imigrantes. Para os seguidores de Corbyn, a visão é mais antiga – porque já foi repetida muitas vezes: a solidariedade permanente e inequívoca aos não-alinhados, não importando, portanto, qualquer opressão que os oprimidos desses regimes sofram ou venham a sofrer; basta ser parte do clube para não ser criticado. Os judeus, segundo esta visão superficial, já ocupam o seu posto. Hamas, Hezbollah, Irã, Bashar al-Assad são incriticáveis porque, também por esta mesma interpretação, “lutam contra o imperialismo”.

Esta divisão simplória da realidade não concebe solidariedade aos opositores desses grupos e regimes ou condenação às perseguições que esses regimes realizam a grupos minoritários, à inexistência de oposição livre. Esta corrente de pensamento se alinha ao antissemitismo porque parte de seus aliados internacionais é abertamente antissemita, repetindo os mesmos slogans usados pela extrema-direita e também pela extrema-esquerda ao longo dos séculos. Os judeus, portanto, são considerados “inimigos de classe”, “conspiradores internacionais”, “financistas apátridas”. E todo o pensamento e atuação são construídos a partir deste raciocínio.

Tudo isso está em jogo na Grã-Bretanha. E Jeremy Corbyn não consegue responder ou se posicionar de forma convincente a respeito. É possível que, mesmo assim, ele seja em algum momento o primeiro-ministro britânico.