Quem pode ter a saída para a crise atual com o Irã?

09 de Agosto de 2018
Por Henry Galsky As sanções americanas ao Irã estão de volta. Este é o resultado natural de uma escalada cujo pontapé inicial foi a decisão tomada por Washington no último dia 8 de maio de retirar os EUA do Acordo Nuclear assinado entre as potências internacionais e os iranianos em 2015. Foi até aqui o golpe mais profundo não apenas contra Teerã mas principalmente contra o escopo teórico e prático da obra internacional do ex-presidente Obama, de seus secretários de Estado Hillary Clinton e John Kerry e, finalmente, contra a visão da política externa praticada pelo partido Democrata. 

Em noventa dias, portanto em novembro, as sanções serão ampliadas para que alcancem também a poderosa indústria de petróleo iraniana e suas exportações. A decisão do governo Trump tem uma série de impactos políticos importantes que atingem não apenas o centro da geopolítica do Oriente Médio, mas também a chamada aliança transatlântica histórica entre EUA e Europa vigente ao longo do século 20. 

Neste aspecto, a discordância é explícita, a ponto inclusive de a União Europeia (UE) comunicar que pretende pôr em prática o “estatuto de bloqueio”, instrumento que impede as companhias europeias de aderirem às sanções. É um evidente desafio por parte da UE à decisão do governo Trump. Considerando o ambiente já inflamando das disputas comerciais entre as partes, a questão iraniana pode se tornar mais um ponto de discórdia a ser aprofundado. 

No entanto, é possível que a mediação europeia possa ter como resultado um apaziguamento das tensões entre EUA e Irã, na medida em que a UE pretende manter o acordo nuclear. Apesar de os americanos já estarem fora, os europeus poderiam atuar como mediadores de forma a encontrar um ponto comum entre Washington e Teerã. Este é um momento de tensão, mas é preciso ser claro: ambas as partes têm projetos pragmáticos. A construção de alguma forma de consenso pode ser obtida a partir deste ponto. 

Lembrando sempre que o aspecto mais fundamental ao regime iraniano é sua própria sobrevivência. Para os americanos, há algumas questões inegociáveis, entre elas a segurança de seus aliados regionais – as monarquias sunitas do Golfo, sob liderança da Arábia Saudita, e Israel. Por mais que os russos tenham substituído os americanos no cenário sírio, por exemplo, a Casa Branca entende a pressão sobre o Irã como espaço adequado de forma a reforçar os compromissos históricos regionais, mas de forma absolutamente distinta à atuação do governo do ex-presidente Barack Obama. 

Em novembro, a intensidade americana deve atingir seu ponto máximo, já que o alvo será a produção de petróleo iraniana. Até lá, é possível que os europeus busquem uma saída. Dos dois milhões de barris exportados diariamente pelo Irã, a Europa compra cerca de 25%. 

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, diz que a Casa Branca não busca a mudança do regime iraniano, mas o compromisso de que o Irã passe a atuar como um “país normal”. Esta declaração é muito provavelmente destinada a enquadrar dois projetos importantes da República Islâmica: a influência, interferência e manobras regionais visando ao estabelecimento de ligação contígua entre o próprio território e o mar Mediterrâneo (com repercussão direta sobre os aliados americanos); e a busca por armamento nuclear e seus mísseis balísticos. 

A abordagem americana parece similar ao processo adotado na Coreia do Norte. Mas a complexidade neste caso é muito maior. Há uma infinidade de possibilidades regionais no Oriente Médio, inclusive é preciso levar em consideração as aspirações e práticas russas. As posições e conquistas de Vladimir Putin são inquestionáveis. E ele está a ponto de superar a Guerra Civil síria, uma frente os EUA preferiram agir mais discretamente. 

A pressão sobre o Irã e a exigência de retração de ambições por parte do país também envolvem a Rússia, uma vez que os iranianos e as milícias xiitas que financiam são parte integrante da aliança do Kremlin na Síria. É possível que russos e americanos estejam dialogando sobre isso. Em crise interna com fortes pressões da população, o regime dos aiatolás talvez precise aceitar algum recuo em sua estratégia internacional, principalmente se EUA e Rússia alcançarem um acordo de bastidores sobre o Irã. 

Mesmo com uma administração americana claramente menos interessada nos assuntos internacionais, o caso iraniano pode causar alguma preocupação aos russos. A depender da interpretação de Putin sobre os próximos passos –  se enxergar algum risco à sua vitória regional –, é possível que Moscou opte por sacrificar parcialmente as ambições do Irã. É aqui que se concentra o ponto-chave para encontrar a saída na crise atual.