A estratégia do Hamas para alcançar um novo patamar

15 de Agosto de 2018
Por Henry Galsky Pode parecer estranho, pode num primeiro momento não fazer sentido algum, mas está muito claro que a troca de hostilidades entre Hamas e Israel em curso explicitamente desde março – que chegou a seu ponto máximo na última semana quando o grupo terrorista palestino lançou 200 mísseis sobre o território israelense – é parte de uma estratégia de curto prazo. Sob o ponto de vista do Hamas, o aprofundamento das tensões com Israel pode trazer benefícios políticos e econômicos ao grupo. 

Com a certeza de que o foco do chamado “Acordo do Século” planejado pelo governo Trump – mas ainda não oficialmente divulgado – é justamente sobre Gaza, território sob controle do Hamas desde 2007, os membros do grupo entenderam que criar novas ondas de atrito com Israel é o mesmo que construir poder de dissuasão. 

Um acordo mínimo no conflito entre israelenses e palestinos é a conquista mais almejada e valiosa (apesar de este não ser o conflito mais sangrento da região) das relações internacionais. O Hamas sabe que este é o grande objetivo de política externa de Donald Trump. Não apenas por razões geopolíticas, mas porque encontrar alguma forma de acomodação representaria uma vitória sobre o antecessor, o ex-presidente Barack Obama. 

As manifestações violentas conduzidas na fronteira desde março chamadas de “Grande Marcha do Retorno”, o lançamento de mísseis, pipas e balões incendiários e a permanente situação de instabilidade no sul do território israelense são os elementos que constroem o “boleto de pagamento” apresentado pelo Hamas. Esta conta será paga não apenas por Trump, mas também pelo inimigo interno, a Autoridade Palestina presidida por Mahmoud Abbas. 

A saúde frágil, a idade avançada do presidente palestino e o cenário político interno de Israel – que cada vez mais caminha para construir consenso de que os Acordos de Oslo já não existem mais – são as janelas de oportunidade ao grupo terrorista que controla Gaza. A ideia de reunificar as duas principais entidades palestinas não conseguiu ser concretizada. Para o Hamas, então, o plano é substitui-la. Inicialmente em Gaza – o que já ocorreu há 11 anos, mas agora deve receber a “chancela” de Israel e EUA –, posteriormente na Cisjordânia. 

Ao mesmo tempo, a situação política em Israel é complexa. Especialmente frágil ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, cuja maioria no Knesset, o parlamento do país, é obtida por apenas seis cadeiras. Dos 120 deputados, a coalizão de partidos a sustentar Netanyahu no cargo tem 66. Basta um partido decidir romper, mesmo um com poucos membros, e o governo cai. 

E as discussões internas são muitas, todas elas com potencial de derrubar a coalizão: assentamentos na Cisjordânia, casais homossexuais que querem ter filhos, reação à ofensiva do Hamas, alistamento obrigatório de judeus ortodoxos no exército, a Lei do Estado-nação. Esses são apenas alguns dos temas que causam enorme controvérsia e, portanto, carregam intrinsecamente o potencial de desgastar e separar os partidos. 

Para acalmar a situação no sul, aparentemente o governo em Jerusalém está disposto a aumentar a complexidade das negociações com o Hamas. Até hoje, havia diálogos indiretos sobre cessar-fogo. Agora, a realidade é mais complexa. Graças ao que parece ser o caminho do “Acordo do Século” planejado pelos EUA, o Hamas tende a ganhar status de Estado, já que é a entidade que oficialmente e de fato controla Gaza. Serão seus membros os responsáveis por decidir, direta ou indiretamente, o futuro do território. Não apenas sob aspecto militar, mas político e econômico. 

E tudo isso pode vir a ocorrer sem que o Hamas tenha recuado um centímetro sequer em sua narrativa oficial (que inclusive está explícita na carta de fundação do grupo) que estabelece seu objetivo de destruir Israel. 

O grupo, portanto, aparentemente soube analisar o cenário político interno israelense, o doméstico da disputa por poder palestino, o regional do Oriente Médio e o internacional alterado pela eleição de Donald Trump para montar a estratégia que até agora caminha para conferir ao Hamas o seu momento de maior projeção e poder.