O cessar-fogo entre Israel e Hamas

22 de Agosto de 2018
Por Henry Galsky E eis que o cessar-fogo entre Hamas e Israel se concretizou. Mas, como de costume, o Oriente Médio não é para principiantes. O cessar-fogo está em vigor, mas isso não necessariamente significa o fim por completo da violência e das hostilidades. O Hamas novamente promoveu mais uma sexta-feira dedicada ao projeto “A Grande Marcha do Retorno”, a série de manifestações em que seus membros e também palestinos em geral vão à fronteira de Gaza para enfrentar as tropas israelenses. 

Existe a sensação clara de que, por mais que Israel e Hamas tenham interesse – por razões distintas – no fim das hostilidades, nenhum dos dois lados quer ser o primeiro a silenciar. Se há algo de comum entre essas duas entidades absolutamente distintas é que ambos concordam que baixar as armas e baixar o tom pode e será interpretado pelo público externo e principalmente interno como sinal de fraqueza. 

Como escrevi em meu texto mais recente, o Hamas tem capitalizado esta lógica de enfrentamento, recolhimento, aceno de trégua e novo enfrentamento para aumentar sua força política e econômica em diversas frentes. Ao mesmo tempo, o governo israelense não tem conseguido encontrar saídas e respostas para a própria população – especialmente a do sul do país – e anseia por uma solução rápida. O Hamas compreendeu a necessidade. E está conseguindo obter as vantagens que procura. 

O cessar-fogo mediado pelo Egito e pela ONU – cuja implementação vinha sendo negada oficialmente pelo governo de Israel – entrou em vigor na última quarta-feira. Foi aprovado pelo gabinete de segurança em Jerusalém com dois votos contrários – do ministro da Educação Naftali Bennett e da ministra da Justiça Ayelet Shaked, ambos jovens influentes da nova direita israelense. 

Membros do partido A Casa Judaica, Shaked e Bennett representam a aliança ambígua e frágil sustentada pela coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Bennett é permanentemente cotado para substitui-lo. A desaprovação de Bennett e Shaked ao cessar-fogo apresentado pelo governo Netanyahu cumpre um rito político importante, já que Bennet e Shaked são símbolos de um posicionamento de parte da sociedade israelense. 

A frágil coalizão do primeiro-ministro e sua frágil trégua/não-trégua com o Hamas apontam a um possível impasse político a partir da análise que os israelenses têm feito: a de que o “acordo” atual não soluciona a situação de insegurança das comunidades vizinhas a Gaza; e de que o gerenciamento desta crise e os caminhos apresentados pelo governo correspondem justamente à realização do projeto do Hamas, que sai fortalecido e possivelmente conseguirá se armar para a próxima rodada de hostilidades. 

É claro que Benjamin Netanyahu sabe disso tudo. É um político experiente e compreende que de dentro de sua coalizão pode emergir seu concorrente direto e substituto nas eleições até agora marcadas para novembro de 2019 (no parlamentarismo é sempre possível – e muitas vezes até provável – que haja necessidade de eleições antecipadas). Mas Bibi está no centro de um tabuleiro que não deixa exatamente margem para movimentos mais amplos. Este é o tema do próximo texto.