A dor de cabeça de Netanyahu

28 de Agosto de 2018
Por Henry Galsky O acordo regional que vem sendo costurado pelos EUA – ou pelo menos há indícios disso – corresponde ao principal foco da política externa americana no momento. Sob a presidência de Trump, como escrevi, encontrar alguma forma de acomodação mínima ou estabilização frágil no conflito entre israelenses e palestinos é interpretado como parte do processo de vitória deste governo sobre o anterior. Com as denúncias domésticas envolvendo o atual ocupante da Casa Branca, o assunto passou a ser tratado com ainda mais urgência.

Os sinais sobre o que deve ser este “Acordo do Século” já foram abordados por mim aqui no site anteriormente. Vale lembrar: reconstrução de Gaza, cessar-fogo no sul de Israel e isolamento da Autoridade Palestina presidida por Mahmoud Abbas. O resultado prático deste formato é o óbvio fortalecimento do grupo terrorista Hamas. Este não é um juízo de valor de minha parte, mas uma constatação.

E aí retorno a dezembro de 2017, quando o presidente Trump determinou a mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Há uma série de questões envolvendo a capital israelense sobre as quais já tratei por aqui inúmeras vezes. Há a política interna americana e evangélicos americanos apoiadores do presidente, há a ideia de Trump de, devido à complicação representada por Jerusalém simplesmente tomar a decisão de forma a “remover o item” das discussões, há a relação entre o presidente americano e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.

Mas houve também na ocasião, além das críticas mais estomacais à decisão, o argumento repetido inclusive pela oposição interna a Netanyahu em Israel uma vez que se tratava de uma conquista inegável do atual governo israelense: por que Washington não fez exigências ao primeiro-ministro, considerando-se o impacto e a relevância da decisão anunciada naquela ocasião pela administração americana?

Talvez esta crítica possa começar a ser respondida. Na última semana, em evento público na Virginia Ocidental, Trump disse que “os palestinos irão receber algo muito bom” em função da transferência da embaixada. “Porque é a vez deles”, completou.

Há duas possibilidades diante desta declaração: Trump pode estar tentando ganhar tempo para apresentar mais propostas; pode também estar em busca de credibilidade como homem de negócios que ora se apresenta como inovador nos assuntos internacionais, incluindo sua experiência profissional nesses processos; ou de fato o projeto do “Acordo do Século” está em curso e a mudança da embaixada americana para Jerusalém era moeda de troca sigilosa da ampla proposta dos EUA.

E aqui reside o desafio a Benjamin Netanyahu, considerando-se que Israel é um país cujo regime é parlamentarista e para se manter no cargo político executivo mais relevante é preciso habilidade extrema. Netanyahu indiscutivelmente tem esta credencial, mas pode ser que a conta apresentada por Trump tenha um preço alto demais a se pagar.

Netanyahu teve dificuldades para se sustentar durante a mais recente rodada de hostilidades com o Hamas. Apesar de o sul de Israel ter sido alvo de mais mísseis do que em 2014, quando o próprio Netanyahu lançou a Operação Margem Protetora, o líder israelense optou por não iniciar uma guerra aberta contra o Hamas, levando seu governo a sofrer inúmeras críticas internas da oposição e principalmente dos moradores do sul do país.

É muito provável que a decisão de Netanyahu tenha relação com o plano regional americano. Se o propósito do “Acordo do Século” é investir na reconstrução de Gaza, não faria sentido iniciar uma guerra que certamente causaria grandes danos estruturais a uma região que já sofre inúmeras dificuldades estruturais, inclusive com o boicote realizado pela Autoridade Palestina (rival interna do Hamas) no fornecimento de energia elétrica.

Para Netanyahu, o desafio político que se apresenta no ano anterior à eleição marcada para novembro de 2019 (mas que sempre pode ser antecipada) é conseguir responder às críticas da oposição de que, para atender aos pedidos de Washington, seu cessar-fogo (mediado por Egito e ONU) terminou por fortalecer o controle, a soberania e o capital político do Hamas.