O principal impasse no conflito entre israelenses e palestinos – parte II

12 de Setembro de 2018
Por Henry Galsky A decisão americana de fechar a missão diplomática palestina em Washington é mais uma etapa do processo de pressão do governo Trump para acelerar o encerramento do conflito israelense-palestino. A questão é que, como tem ficado claro ao longo desses dois anos, a atual administração apresenta perspectivas muito particulares sobre a forma de negociação a ser estabelecida entre as duas partes. 

Simbolicamente, o gesto carrega ainda mais significado, na medida em que ocorre 25 anos depois da assinatura dos Acordos de Oslo entre israelenses e palestinos, em 1993 (foto). Símbolo máximo das abordagens imaginadas pelo partido Democrata, nos EUA, e pelo partido Trabalhista, em Israel, os Acordos de Oslo têm sofrido sucessivos revezes e, na prática, foram enterrados pela realidade dos acontecimentos. 

Se há algo de concordância rara – tanto por parte da atual coalizão de governo em Israel, como da liderança americana e palestina – é que Oslo, apesar de simbólico, não vale mais. No entanto, esta concordância é muito breve. As três partes citadas acima se dividem em dois blocos; as lideranças americana e israelense acusam a liderança palestina pelo fracasso. A liderança palestina acusa americanos e israelenses. 

Seja como for, se politicamente as atuais lideranças de governo americana e israelense fecham posição sobre Oslo e sobre como entendem as possibilidades daqui para frente, os diversos organismos que compõem a estrutura de segurança israelense pensam o contrário. Ou melhor, essas instituições técnicas de Israel, inclusive as Forças de Defesa de Israel (IDF), entendem que as sucessivas medidas apresentadas pelo governo de Donald Trump podem prejudicar a segurança interna de Israel. 

Como escrevi, a ideia de questionamento da UNRWA e da estratégia de prolongamento do status dos refugiados palestinos por tempo indeterminado (o que ocorre na prática em virtude dos argumentos que apresentei na primeira parte deste texto) serviu como base para determinar a redução total da doação americana à agência. Em 2017, os EUA repassaram à UNRWA 370 milhões de dólares. Em 2016, 355 milhões de dólares. 

Além do conceito relativo à forma única como a agência entende o status de refugiado palestino em contrapartida a todos os demais grupos de refugiados do mundo, a UNRWA é acusada de manter proximidade a grupos terroristas palestinos locais. 

No entanto, mesmo com todos esses elementos, o aparato de segurança israelense discorda da posição do próprio primeiro-ministro do país neste aspecto. A posição é técnica em relação à segurança: é fundamental manter a Cisjordânia em funcionamento até como forma de oposição à situação existente em Gaza controlada pelo Hamas. 

Em entrevista ao site de análises Al-Monitor, um alto oficial israelense expôs esta posição: 

“Na situação que foi alcançada, um palestino médio quase não vê os militares (de Israel). Quase não há checkpoints (postos de checagem) e há ampla liberdade de movimento (...). Pouco se vê o que existia no passado, como longas filas de checagem e engarrafamentos em checkpoints. Milhares de pessoas (da Cisjordânia) trabalham em Israel e nos assentamentos todos os dias”. 

Ou seja, movimentos e decisões abruptas (como a interrupção do repasse americano à UNRWA) colocam em risco a situação de relativa calma e qualidade de vida dos palestinos da Cisjordânia. Por consequência, o aparato militar e de inteligência israelense – em oposição a membros da coalizão governamental do país – entende que alterar este cenário representa ameaça direta à segurança da população de Israel. 

E assim chegamos ao segundo impasse do conflito: os palestinos não têm como garantir a Israel que se os israelenses deixarem completamente a Cisjordânia este território não terá o mesmo destino de Gaza (tomada pelo Hamas e transformada em base de lançamentos de mísseis contra o sul de Israel). Mais ainda, não há garantias de que as consequências não serão as mesmas resultantes da retirada israelense do sul do Líbano em 2000 (o Hezbollah transformou a região em base permanente onde há estimativas de que aloca mais de cem mil mísseis apontados para Israel). 

Ao mesmo tempo, a impossibilidade de encontrar uma solução viável para as demandas de segurança de Israel e para a autodeterminação pleiteada pelos palestinos prolonga indefinidamente este impasse. Mas a vida na Cisjordânia segue em condições melhores quando comparada ao território dominado pelo Hamas em Gaza. 

Este é o tecido e a base sobre as quais se sustentam hoje tanto o dia a dia dos palestinos da Cisjordânia quanto o cotidiano dos israelenses, principalmente o da maioria da população que vive na região central do país. Esta condição de normalidade usufruída pelas duas populações pode ser afetada pelas decisões tomadas pela necessidade do governo Trump de “resolver” o conflito o mais rapidamente possível. É como empurrar uma placa tectônica. Pode ser que nada aconteça. Pode ser que haja um terremoto. Ou um tsunami.