Rússia, Israel e Síria disputam a narrativa sobre abate a avião militar

21 de Setembro de 2018
Por Henry Galsky Na segunda-feira, dia 17, um míssil do sistema de defesa sírio derrubou um avião militar russo, causando a morte de 15 militares a bordo. O incidente se transformou numa disputa narrativa em função da confusão de versões na medida em que, de acordo com o posicionamento oficial sírio, o alvo era a força aérea de Israel, que naquele momento estaria realizando mais um ataque contra uma base síria envolvida na transferência de armamento à milícia xiita libanesa Hezbollah. 

O episódio rapidamente subiu na escalada de acontecimentos que caracterizam não apenas a Guerra Civil síria, bem como o Oriente Médio de maneira mais ampla. A posição israelense é de que o incidente foi fruto do “lançamento indiscriminado de mísseis” por parte da Síria. Os sírios acusam Israel e colocam na conta dos israelenses a morte dos russos. A posição russa está em transformação, muito em função dos interesses regionais do presidente Vladimir Putin.

Num primeiro momento, o porta-voz do descontentamento de Moscou foi o ministro da Defesa Sergei Shoigu, que, em conversa telefônica com o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, deixou claro que os russos consideravam que a culpa pelo incidente cabia integralmente a Israel. Shoigu ainda acrescentou que a Rússia se reservava o direito de responder da maneira “apropriada”. O mistério naquele momento era entender como o termo poderia se aplicar na prática. 

Existia inclusive a possibilidade, mesmo que remota, de, por interpretação da declaração do ministro russo, na medida em que creditava a responsabilidade inteiramente a Israel, o país optar por provocar a queda de um avião israelense – atitude que, se concretizada, elevaria a tensão entre Israel e russos a patamar inédito. 

Mas as lideranças políticas dos dois países rapidamente trataram de minimizar o potencial do acontecimento. Mesmo sem admitir responsabilidade pelo ocorrido, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ligou para Putin lamentando o incidente. Também prometeu investigar a fundo o episódio e enviar o comandante da força aérea para explicar pessoalmente ao presidente russo os resultados obtidos. 

Putin por sua vez deixou claro que a situação era diferente da grave crise ocorrida entre Rússia e Turquia depois que um caça russo foi abatido pelos turcos.  Segundo o líder russo, na ocasião a Turquia abateu a aeronave da Rússia deliberadamente, enquanto o episódio na Síria representa “uma cadeia de acontecimentos trágicos” e prometeu que as medidas de retaliação serão basicamente “prover segurança adicional aos nossos homens em serviço e estruturas (estabelecidas) na Síria”. 

Nem Israel, nem Rússia têm interesse em entrar em confronto direto. Nenhum dos dois países têm vantagens a obter a partir de um eventual enfrentamento, muito pelo contrário. Putin já empenhou recursos, capital político e homens no complexo esforço de obter alguma forma de acomodação na Síria. E está vencendo. 

Israel e Rússia mantêm coordenação próxima em função das ações dos dois países na Síria. Israel tem usufruído de grande liberdade de atuação cujo propósito envolve basicamente dois focos: impedir o estabelecimento de bases iranianas no território; e impedir a transferência de armamento sírio e iraniano ao Hezbollah. 

Como estratégia permanente, perder esta liberdade de ação deixaria o país em situação vulnerável. Daí a razão da deferência israelense aos russos. A ponto inclusive de enviar a Moscou delegação militar chefiada pelo comandante da força área Amikam Norkin. 

Neste momento, portanto, o objetivo das lideranças políticas dos dois países é acalmar os ânimos internos e retornar ao status-quo.