Ataque em parada militar reforça o maior temor do regime iraniano

25 de Setembro de 2018
Por Henry Galsky O ataque a uma parada militar na cidade de Ahvaz, no sudoeste do Irã, precipitou nova escalada de tensão e discursos inflamados por parte das autoridades do regime. O atentado, que deixou ao menos 29 mortos e 60 feridos, foi assumido por dois grupos: o Estado Islâmico e um grupo árabe contrário ao governo de Teerã.

Apesar das duas reivindicações, a posição oficial iraniana é repleta de teorias cujo foco é a disputa regional mais ampla. De acordo com o discurso que se vê até o momento, a ideia é colocar a responsabilidade sobre os adversários institucionais externos: as monarquias sunitas do Golfo Pérsico – lideradas pela Arábia Saudita – e Israel. Ambos patrocinados pelos EUA. 

Para o ministro das Relações Exteriores do país, Mohammad Javad Zarif, os grupos terroristas por trás do ataque teriam recebido treinamento e armamento americano. A partir desta declaração de um alto funcionário do governo, a cúpula iraniana iniciou uma série de medidas institucionais que incluem a convocação dos representantes diplomáticos de Grã-Bretanha, Dinamarca e Holanda (é possível que mais funcionários estrangeiros também sejam chamados a dar explicações). 

Especificamente em relação a este ponto, os iranianos procuram vincular a realização do ataque à acusação de que esses países abrigariam grupos de oposição ao governo do Irã. 

E aí passo ao ponto central desta lógica: já escrevi muitas vezes por aqui sobre os objetivos centrais dos quais o governo não abre mão, mesmo em qualquer eventual processo de negociação com o Ocidente. O mais fundamental desses itens é, claro, é a sobrevivência do regime da maneira como ele se estrutura a partir da Revolução Islâmica ocorrida em 1979. 

De fato, este tem sido um momento de apreensão para a cúpula iraniana. A opção americana de se retirar do Acordo Nuclear assinado em 2015 e as intensas manifestações domésticas de contestação sinalizaram que a continuidade de existência do regime está sob ameaça externa. Esta é a interpretação consolidada internamente. E, de acordo com o posicionamento do governo, este é um movimento que não apenas precisa ser freado, mas respondido. 

O atentado na parada militar aumenta ainda mais a narrativa que vem sendo construída. 

Importante perceber que, na prática e simbolicamente, o ataque teve como alvo a prestigiada Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC, em inglês), a força militar de elite do país constituída como unidade de ação da própria Revolução Islâmica. Portanto, internamente, a ideia de que o regime está sob ataque externo ganha cada vez mais força.