A política externa de Bolsonaro

03 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky Já virou até lugar-comum, mas sempre é importante lembrar a natureza única desta eleição presidencial brasileira. A campanha e as discussões refletem a polarização que se instaurou no país desde que – verdade seja dita – Aécio Neves não aceitou o resultado de 2014. O PSDB apoiou o questionamento de seu então candidato derrotado e contribuiu de maneira decisiva para o processo que muita gente passou a chamar de terceiro turno – cujo ápice foi o impeachment da presidente Dilma Rousseff dois anos depois. 

O problema para o PSDB, para Geraldo Alckmin e para o Brasil é que a ideia de terceiro turno permaneceu. A polarização, que num primeiro momento parecia estar concentrada em Dilma, ainda não deu sinais de trégua, pelo contrário. O candidato Jair Bolsonaro é o efeito colateral deste processo. Representa a maneira como milhões de pessoas entenderam que é preciso dar o troco na política tradicional, no PT, no PSDB e em muitos outros aspectos da vida brasileira. O eleitorado de Bolsonaro é difuso, mas movido pela certeza de que, entre outros fatores, o candidato representa o próprio rompimento com “tudo o que está aí”. 

A política externa de Bolsonaro segue esta mesma linha. Personificando o ódio ao PT (e a eleição passou a ser menos propositiva e mais um plebiscito sobre o partido de Lula), o presidenciável do PSL segue linha bastante próxima à maneira como Donald Trump interpreta e reage à construção internacional de oito anos de governo Barack Obama. 

Escrevo sempre por aqui que um dos fundamentos de Trump é fazer o contrário de seu antecessor. Se no conflito palestino-israelense o ex-presidente Democrata sustentou a tese histórica de dois estados para dois povos, o atual ocupante da Casa Branca já questionou esta prerrogativa (muito embora recentemente tenha dado sinais de ter voltado atrás); se a grande conquista da gestão de Obama foi o acordo sobre o programa nuclear iraniano, Trump optou por retirar os EUA do tratado; esta lógica tem sido aplicada sobre muitos pontos da política externa americana, como o acordo do clima de Paris, a relação com os aliados europeus da Otan etc. 

Bolsonaro, apesar de pouco específico, pretende seguir esta trajetória. Inclusive com a mesma lógica de alianças. O eleitorado evangélico e sua representação política que sustentou a decisão de Trump de mudar embaixada do país em Israel de Tel Aviv para Jerusalém também mantêm semelhanças com a bancada religiosa da coalizão não apenas de forças políticas de Bolsonaro, mas da sociedade brasileira de maneira mais ampla. 

(leia aqui o texto dedicado a esta explicação) 

Além disso, a ideia do candidato do PSL é questionar a tradição de política externa brasileira baseada no multilateralismo, podendo inclusive romper com certas premissas da Organização Mundial do Comércio (OMC). Bolsonaro tem viés nacionalista também quando se refere à China, desconfiando publicamente das ambições do país no Brasil: 

“Está vindo um monte de chinês aqui comprar nossas terras, eles vão quebrar nossa agricultura e dominar nossa segurança alimentar. A China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil”, disse em vídeo publicado neste ano. Foi o primeiro candidato a presidente a visitar Taiwan desde que, em 1974, o Brasil reconheceu a política de “uma só China”. Ou seja, os sucessivos presidentes brasileiros não questionam a diretriz básica chinesa quanto à soberania do país sobre Taiwan. Bolsonaro pode vir a ser o primeiro presidente brasileiro a romper com esta premissa. 

No fundamento de todas as declarações do candidato e da forma como parece que, se eleito, irá conduzir a política externa brasileira está a fórmula de seu sucesso junto ao público que passou a chamá-lo de “mito”: a noção de desmonte da estrutura criada pelo PT. Se o partido de Lula seguiu por um caminho, Bolsonaro promete seguir por outro. 

Na eleição que se transformou em plebiscito sobre o Brasil criado pelos anos de presidência do ex-presidente e de Dilma Rousseff, o sucesso de Bolsonaro é a personificação do antipetismo. Se parte do eleitorado irá apertar 17 nas urnas porque seu candidato declaradamente simboliza o ódio ao PT da maneira mais venal, a política externa a ser aplicada por Bolsonaro é parte integrante deste pacote de rejeições.