De junho de 2013 a Bolsonaro

09 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky A onda de Bolsonaro e de seus associados que saiu vencedora das urnas encontra em sua origem as distantes manifestações de junho de 2013, quando, inicialmente, a população foi às ruas para protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Naqueles dias, pouco depois de o Movimento Passe Livre (MPL) entender que a reivindicação primária havia sido tomada, começou a ser pavimentado o caminho que hoje resultou em Jair Bolsonaro. 

Junho de 2013 iniciou a transformação. A ojeriza dos brasileiros pela política, pelos políticos e pelos partidos ficou expressa com clareza objetiva. Havia a expectativa de que as manifestações resultassem em mudanças no jogo logo nas eleições do ano seguinte. Houve um represamento desta latência, mas ela começaria a transformar a política tradicional durante o mandato da ex-presidente Dilma Rousseff. 

Transcrevo abaixo uma parte de um texto que publiquei por aqui em maio de 2016, três meses antes da concretização do impeachment de Dilma:

“Em 2015, a Operação Lava Jato tomou mais corpo, e os brasileiros foram às ruas em manifestações que, ao contrário daquelas de 2013 (em seu período inicial), exigiam o fim da corrupção. A pauta passou a ficar concentrada no governo Dilma, em Lula e no PT (as manifestações amarelas julgaram que essas três entidades eram as culpadas pela corrupção no Brasil). 

Naquele momento, nascia um novo herói nacional, o juiz Sérgio Moro.

Em comum à segunda parte das manifestações de 2013, novamente a rejeição à política. Tanto que Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram hostilizados na grande manifestação na Avenida Paulista realizada em março deste ano”. 

É impossível analisar o resultado atual ignorando esses eventos pregressos. Em comum também a 2013, 2015 e 2016 o surgimento do saudosismo militar. Foi com certo olhar caricatural que parte da sociedade interpretou os primeiros cartazes aludindo ao fascínio pela ditadura. 

Primeiro, eram poucos manifestantes trajados com vestes militares e ostentado placas clamando por intervenção. Agora, cinco anos depois, o provável futuro presidente é o representante de setores abertamente favoráveis ao revisionismo histórico. Além de questionar a tortura, Bolsonaro promete – e deve cumprir – a opção de nomear militares e ex-militares em cargos importantes da futura administração. 

Assim como ocorreu na corrida eleitoral americana que levou Donald Trump à Casa Branca, muita gente tomou como piada as declarações de Bolsonaro. Hoje, ele está a duas semanas de se tornar presidente e mostrou enorme força política: muitos dos vencedores pelo país se associaram a ele. 

O Partido Social Liberal (PSL) foi uma legenda irrelevante durante 20 anos de existência. Agora, com Bolsonaro encabeçando a chapa presidencial, elegeu 52 deputados e quatro senadores. 

O revisionismo histórico não é um fenômeno apenas entre os políticos, mas presente na sociedade brasileira (e que explica, parcialmente, o sucesso de tantos militares nas urnas em 2018). Em setembro de 2018, o Instituto Paraná Pesquisas realizou um levantamento em todo o país sobre o regime militar no Brasil. 

Quando questionados sobre eventual intervenção militar provisória, 43,1% dos entrevistados responderam favoravelmente, enquanto 51,6% foram contrários. Quando a pergunta mudou para “Caso a justiça não puna os corruptos, o senhor(a) seria a favor ou contra a volta dos militares ao comando do Brasil?”, 50,6% dos ouvidos disseram que concordariam com a possibilidade de um governo militar. 

É impossível analisar o fenômeno Bolsonaro sem levar em consideração a sucessão de importantes eventos sociais e políticos ocorridos no Brasil nesses últimos cinco anos. O presidenciável do PSL é o resultado direto do amplo processo de ruptura com a política tradicional no qual o país mergulhou desde 2013.