“O meu partido é o Brasil” - o slogan que representa o fim do processo

15 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky Complementando o texto anterior, vale ainda analisar as fontes e acontecimentos que contribuíram decisivamente para a construção do momento atual. Por trás da decadência dos partidos e da política tradicional – cujos resultados no plano nacional, especialmente na Câmara, no Senado e na corrida presidencial mostram a própria incompetência na interpretação e na formulação de estratégias –, o nascimento de organizações e lideranças que carregam em sua formação genética o propósito de estabelecer, sem previsão de encerramento, um novo olhar sobre Brasil com foco conservador.

É importante dizer que o nascimento desta nova onda conservadora ocorreu a partir de dois fatos de extrema relevância na história recente do país (um deles articulado inclusive por parte da classe política tradicional que passou, ela mesma, a ser substituída pelos conservadores do momento que estão rapidamente tomando o lugar da classe política dominante).

O primeiro deste eixo fundamental se deu justamente em junho de 2013 durante as manifestações de junho analisadas extensamente por aqui. Dediquei boa parte do texto anterior a recordar o episódio envolvendo as manifestações, quando rapidamente as reivindicações do Movimento Passe Livre (MPL) deram lugar a pautas difusas, que no final se concentraram sobre a contestação aos políticos tradicionais.

E aí há dois acontecimentos que considero simbólicos e que sinalizavam para as possibilidades que agora surgem como reais: o aparecimento das primeiras faixas clamando por intervenção militar (que não necessariamente irá ocorrer, mas que contribuiu para a ascensão de um candidato diretamente relacionado ao passado histórico recente de ditadura militar) e os vários episódios ocorridos durante as manifestações de junho de 2013 quando bandeiras de partidos políticos foram queimadas.

Este é o pequeno histórico sobre 2013 no período pré-eleitoral durante a ebulição de sentimentos, vozes e demandas reunidas depois que, vale sempre lembrar, as manifestações organizadas pelo MPL foram apropriadas.

Já no período pós-eleitoral do ano seguinte, 2014, parte do setor político tradicional iniciou o processo de autodestruição depois que Aécio Neves contestou a lisura do sistema de contagem eletrônica dos votos que deu a vitória à Dilma Rousseff. O antipetismo se transformou numa bandeira clara levantada, desta vez, pelos partidos que naquele momento representavam a oposição.

O PSDB, legenda tradicional e a maior força de centro do país, iniciou o caminho que hoje encontrou o PSL, Jair Bolsonaro e o empoderamento do Movimento Brasil Livre (MBL). Aécio Neves criou a figura inédita do “terceiro turno” e, em 2015, aglutinou o partido a muitos setores da sociedade que patrocinaram o impeachment, inclusive outro grande partido derrotado neste ano de 2018, o PMDB.

No entanto, a aposta de PMDB e PSDB não levava em consideração as mudanças globais que agiriam com enorme poder nas eleições brasileiras de 2018; o antipetismo anabolizado nos últimos quatro anos pelas delações premiadas, o Judiciário, a Lava Jato, o impeachment e o fenômeno das fake news pôs em xeque não apenas o partido de Lula, mas o sistema político de maneira ampla. Nas urnas, o poder que o PT ocupou desde 2003 não foi transferido de volta ao PSDB. O “acordo” sonhado por Romero Jucá foi rejeitado. 

Nem PT, nem PSDB, nem PMDB (nem Romero Jucá, inclusive). As urnas transferiram o poder dos políticos tradicionais para aqueles que, em 2013 e 2015 (aí já durante as manifestações que de forma explícita rejeitavam os partidos e também apoiavam em boa parte o retorno ao regime militar) foram os civis articuladores do processo de guinada do Brasil; foram paridos à relevância política aqueles mais identificados com o MBL e a onda conservadora que flerta com o poder coercitivo: Kim Kataguiri, um dos fundadores do próprio MBL, Janaína Paschoal, autora do pedido do impeachment de Dilma e agora a deputada estadual mais votada da história, e Jair Bolsonaro, político tradicional, mas considerado como alguém de fora devido a suas declarações e posicionamentos nada políticos.

Em comum a todos esses nomes, a contestação do status-quo político, a grande oposição ao PT e o conservadorismo extremo representado, entre outros aspectos, pela rejeição às conquistas obtidas pelas minorias nos últimos 15 anos. O PSL, que a partir de janeiro será a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, é um símbolo deste raciocínio, um partido que existe apenas porque o processo eleitoral demanda a candidatura por um partido. No entanto, é uma legenda que reúne conservadores que representam a antítese ideológica das legendas tradicionais. Para nomes como Janaína Paschoal, Jair Bolsonaro e Alexandre Frota, o PSL é apenas um meio obrigatório. Não uma bandeira.

E tudo isso recebeu enorme aceitação do eleitorado. A onda conservadora vencedora é uma grande contestação não apenas ao petismo, mas a direitos obtidos ao longo deste século. As liberdades individuais, as cotas nas universidades, o bolsa família, a Comissão da Verdade, a igualdade de gênero são elementos rejeitados por parte do eleitorado que provocou esta grande mudança no cenário político. O slogan de Jair Bolsonaro – “O meu partido é o Brasil” – resume bem essa história recente de questionamentos e rejeições.