Um olhar amplo sobre o desaparecimento do jornalista saudita

18 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky Na medida em que o desaparecimento do jornalista saudita Jamal Khashoggi no interior do consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia, vai se desenhando mais claramente como um ato de governo, o caso pode trazer muito mais problemas ao reino do que a condenação internacional – algo raro, por sinal. A aliança que os sauditas mantêm com os EUA pode estar ameaçada ou, ao menos, pode passar por um momento de grande pressão exercida também pelos próprios americanos. 

Um grupo de senadores democratas e republicanos enviou conjuntamente a Donald Trump uma carta invocando a Lei Magnitsky que exige ao presidente tomar uma decisão no prazo de 120 dias sobre o caso. A situação coloca a Casa Branca em possível xeque, uma vez que os EUA podem se ver na condição de iniciar um processo de investigação sobre a morte do jornalista. Se a Arábia Saudita for considerada culpada, os americanos deverão impor sanções justamente sobre o principal aliado do país entre as nações árabes. 

Vale dizer que a relação de proximidade entre EUA e Arábia Saudita tem sido estrategicamente reforçada durante o governo Trump. Foi ao país árabe que o presidente americano fez sua primeira viagem internacional oficial. Jared Kushner, assessor, genro e homem de confiança do presidente para assuntos relacionados ao Oriente Médio, rapidamente estabeleceu amizade com o jovem príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman (mais conhecido como MBS). 

Os interesses de Washington no reino vão muito além de superficialidades. Em sua linha-mestra de atuação internacional (seguir caminho contrário ao do antecessor Barack Obama), Trump procurou reforçar a aliança com os sunitas no Oriente Médio de forma a isolar o Irã. No entanto, por enquanto os efeitos desta política parecem improdutivos. 

A ideia de transformar o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, em inglês) num bloco de contenção à atuação do Irã por ora teve como resultado prático a aproximação do Catar à administração em Teerã. 

Por muito pouco – apenas quatro votos – o Congresso americano esteve perto de suspender a venda e assistência militar aos sauditas em decorrência das mortes de civis iemenitas na guerra que o país árabe trava contra a milícia xiita houthi (grupo armado e apoiado pelo Irã). 

O projeto de calar um jornalista de oposição que vivia nos EUA pode ter muitos impactos ao país. Em entrevista ao programa 60 Minutes, Donald Trump prometeu punir severamente o reino saudita se ficar comprovado que a morte de Jamal Khashoggi foi um ato oficial de governo.  

É uma situação aparentemente de impasse e que pode ter grande repercussão na estratégia regional americana e na principal disputa em curso no Oriente Médio, a luta por influência, fontes de energia e predomínio militar entre sunitas e xiitas.