Não à generalização – uma resposta à coluna assinada por Gilberto Scofield Jr.

21 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky Sim, há judeus que irão votar em Bolsonaro. Sim, há judeus que irão votar em Haddad. Por isso, não foi sem espanto que li a coluna “Quem são os judeus que flertam com o fascismo?” publicada no domingo, 21 de outubro, no Jornal do Brasil. O texto é de autoria de Gilberto Scofield Jr., um jornalista respeitado, mas que errou feio. 

A coluna comete vários equívocos generalistas, sendo o mais importante deles o “argumento” – explicitado pelo autor – de que “nada há no discurso de judeus pró-Bolsonaro (sic) a mais vaga ideia de ‘progressistas enganados pelo PT’. Nunca foram progressistas (os judeus pró-Bolsonaro) e flertam com ideias racistas e autoritárias que vítimas do nazismo ao redor do mundo deveriam, em respeito a suas histórias, evitar. São egoístas e conservadores sem um pingo de humanismo na veia”. Gilberto Scofield Jr. chega a tais conclusões a partir de uma nota emitida no carnaval deste ano pela Associação Sionista Brasil-Israel (ASBI) e pelo depoimento de dois empresários judeus entusiastas do candidato Bolsonaro. Repito: dois. 

Portanto, dos cerca de cem mil judeus brasileiros, Gilberto Scofield Jr elege alguns porta-vozes da comunidade judaica (que, diga-se de passagem, jamais foram escolhidos pela comunidade judaica como seus representantes oficiais). E, entre os judeus brasileiros que irão votar em Bolsonaro, dois deles resumiriam a relação da comunidade judaica brasileira com o Holocausto, com o próprio passado e também com a solidariedade (ou a falta dela) a outros grupos minoritários que com frequência são citados e atacados por Jair Bolsonaro. Há mais um terceiro “depoimento” que Gilberto Scofield Jr. usa para sustentar a sua tese sobre a comunidade judaica brasileira. Mas este será examinado mais adiante. 

Aqui cabe uma resposta ao jornalista: não tenho em mãos, não tive acesso e não creio existir uma pesquisa realizada entre a comunidade judaica sobre sua preferência eleitoral. Mas, mesmo que tal levantamento tivesse sido feito, não se pode tratar uma comunidade inteira como um monólito. Talvez Gilberto Scofield Jr. não saiba, mas a comunidade judaica é tão plural e diversa em suas posições de toda ordem (inclusive política) como a sociedade brasileira mais ampla. Vou contar o que parece ser uma novidade (inacreditavelmente, para alguns): há judeus de esquerda e de direita. 

Gilberto Scofield Jr. também cita o célebre discurso de Bolsonaro na Hebraica-Rio e lembra a seus leitores sobre os 300 presentes que riram das piadas e declarações do candidato acerca de quilombolas e indígenas. Mas Gilberto Scofield Jr. esquece-se de citar também os judeus que estavam do lado de fora do clube, protestando contra a presença de Bolsonaro. Também não faz menção ao protesto formal  assinado por 3 mil judeus que forçou a Hebraica de São Paulo a cancelar a palestra de Bolsonaro. Também pela ocasião da palestra na Hebraica-Rio, o rabino Nilton Bonder fez críticas assertivas ao evento publicadas amplamente na imprensa. Mas nada disso foi lembrado por Gilberto Scofield Jr. 

A fantasia sobre conluios políticos envolvendo judeus não é nova. Já serviu de base inclusive para um capítulo importante da história brasileira. Em 1937, o capitão Olympio Mourão Filho forjou um documento com o sugestivo nome de Plano Cohen, um suposto esquema comunista para tomar o poder. Essa farsa foi usada como justificativa para Getúlio Vargas fechar o Congresso Nacional e dar o golpe que faria nascer o Estado Novo. 

Para situar a discussão na atualidade, há que se dizer, novamente, que mesmo entre os judeus com vida política pública há posicionamentos dos mais diversos. No PSDB, o ex-vice-governador de São Paulo Alberto Goldman; no PT, o recém-eleito senador e ex-governador da Bahia Jaques Wagner. No caso do PT, inclusive, Paul Israel Singer (que morreu em abril deste ano) foi um dos fundadores do partido, tendo coordenado o primeiro programa econômico de Lula quando ele se candidatou ao governo de São Paulo em 1982. Há muitos outros exemplos à direita e à esquerda. 

Dito tudo isso, volto à última “fonte” citada por Gilberto Scofield Jr. em sua coluna: um texto apócrifo que circula pelo Whatsapp de uma suposta ex-aluna de escola judaica decepcionada pelos membros de sua comunidade que votam em Bolsonaro. O texto – apócrifo, repito – se traduz numa série de conclusões generalistas sobre os judeus (assim como a coluna de Gilberto Scofield Jr., por sinal) que logo se transformam em palavras ofensivas e acusações à “incapacidade da comunidade judaica de se solidarizar” a outras minorias atacadas por Bolsonaro. Considero importante ressaltar este ponto: uma das peças usadas para ilustrar a argumentação de Gilberto Scofield Jr. é um texto apócrifo (sem assinatura) que circula no mesmo Whatsapp que, por meio da distribuição de fake news, se tornou objeto de contestação neste processo eleitoral. 

Por fim, acho importante dizer que, como jornalistas, sabemos – ou, pelo menos, deveríamos saber – de nossa responsabilidade social. Também sabemos que, muitas vezes, um texto jornalístico pode ser usado para sustentar as piores teses. E o jornalista Gilberto Scofield Jr. sabe (e se não sabe, deveria saber) que, num país polarizado e violento como o nosso, o seu texto pode ser entendido como um salvo-conduto a generalizações sobre os judeus. Escrever um texto fazendo tais relações pode afetar a toda a uma comunidade e estigmatizar uma minoria brasileira. Isso não é novo, mas é desonesto e perigoso.