Arábia Saudita, direitos humanos e o desequilíbrio nas relações internacionais

25 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky O episódio envolvendo o assassinato do jornalista saudita pelo próprio governo dentro do consulado em Istambul é apenas a ponta do iceberg de um regime autoritário que tem extensa lista de abusos contra opositores e repressão a mulheres e minorias. Mas não apenas isso; também exemplifica a incoerência nas relações internacionais e na forma como a comunidade de países exerce pressões desequilibradas quanto se trata de direitos humanos. 

Desde março de 2015, a Arábia Saudita lidera uma coalizão de forças sunitas em guerra contra os rebeldes houthis – xiitas apoiados pelo Irã no Iêmen. Este conflito já matou mais de dez mil civis, deixou mais de 50 mil feridos, causou fome em larga escala e provocou, entre outras doenças, a maior epidemia de cólera mundial. 

Em setembro do ano passado, 60 ativistas políticos foram detidos pelo país. Críticos ao regime estão presos. Mulheres e membros de minorias são discriminados. Em 2017, 146 pessoas foram executadas legalmente, 59 delas por crimes não-violentos relacionados a drogas. E a comunidade internacional parecia não dar nenhuma importância a esses dados até Jamal Khashoggi ser assassinado. 

Comentei sobre o desequilíbrio nas relações internacionais e na condenação internacional (ou falta dela, no caso da Arábia Saudita). Mesmo com todas essas informações, o país ocupa assento no Conselho de Direitos Humanos da ONU até 2019. 

Hoje, o Conselho tem 47 membros, entre eles países com histórico muito pobre ou absolutamente inexistente de respeito e adequação mínima ao que se entende como direitos humanos. Alguns dos que têm assento na organização, além da própria Arábia Saudita: China, Congo, Iraque, Nigéria, Paquistão, Filipinas, Egito, Emirados Árabes Unidos, Venezuela, entre outros. 

O órgão tem agenda política controversa e, em função disso, se omite no cumprimento de suas obrigações mais básicas. A distorção na forma de interpretar a realidade é tamanha que até o início deste ano, apesar de todos os números, a Arábia Saudita não havia recebido qualquer resolução condenatória. Nem a China, por exemplo. A Coreia do Norte recebeu apenas nove condenações. O Irã, seis. A Síria – cujo regime fez uso de armamento químico contra a própria população em pelo menos três ocasiões – recebeu 20 condenações. 

No entanto, Israel recebeu 68 resoluções do Conselho de Direitos Humanos. 

Sempre escrevo por aqui que a busca por coerência na política e nas relações internacionais é a receita para a decepção. O exemplo envolvendo o desequilíbrio do Conselho de Direitos Humanos da ONU e a situação na Arábia Saudita é um dos exemplos mais representativos deste sistema distorcido.