As muitas questões que se apresentam diante de Bolsonaro

29 de Outubro de 2018
Por Henry Galsky Ainda se sabe muito pouco sobre o futuro governo de Jair Bolsonaro, mas está claro que o Brasil marcou na noite deste domingo o encerramento de um ciclo iniciado pela vitória eleitoral de Lula nas eleições do distante ano de 2002.

Entre erros e acertos, os governos petistas de Lula e Dilma tiveram como foco o olhar às populações permanentemente esquecidas pelas políticas públicas. Também houve a preocupação e o reforço das possibilidades de afirmação de identidades e reconhecimento pelo Estado dos segmentos representados pelas mais diversas minorias.

Entre outros aspectos igualmente importantes, este Brasil foi derrotado nas urnas. O projeto de inclusão a partir de olhar mais generoso do próprio Estado brasileiro sofreu um grande revés.

Este é um processo que não começou agora, como tenho escrito há muito tempo por aqui. A meu ver ele teve início nas manifestações de junho de 2013, passou pela contestação do resultado eleitoral de 2014, tornou-se cada vez mais viável por meio do impeachment e do fortalecimento do Movimento Brasil Livre (MBL) em 2016 e se cristalizou na noite deste domingo.

Para deixar claro, toda esta análise não isenta o PT – e de forma mais ampla o campo mais à esquerda do espectro político – de seus erros. Houve equívocos no modo de fazer política e na forma de análise de demandas da sociedade. Por exemplo, o campo mais progressista deixou em branco a pauta da segurança pública, um dos itens mais relevantes a explicar o nascimento da candidatura de Bolsonaro e sua posterior vitória nas urnas.

Com resultados eleitorais consolidados, é preciso que o novo governo apresente propostas claras. Se estiver realmente comprometido com a pacificação do país, Bolsonaro deverá atuar de maneira firme em relação a seus apoiadores. O discurso do presidente eleito necessita de revisão para que atue de acordo com o cargo que passa a ocupar, não como representante de parcela da população que se sente livre para vociferar frases como “vamos metralhar a petralhada”. Um democrata real não bota fogo num barril de pólvora, não exige a prisão de seu adversário nas urnas, nem ameaça os opositores com exílio. 

Este é um ponto importante. Os acontecimentos das duas últimas semanas nos EUA servem como alerta ao Brasil. Um presidente que incita seus apoiadores contra a imprensa e a oposição pode aprofundar a divisão do país, não pacificá-lo. Ou seja, se a ideia for amenizar a polarização em nome de um projeto nacional, Bolsonaro deverá organizar e comunicar de forma clara suas propostas e ao mesmo tempo impedir que seus apoiadores iniciem um processo de revanchismo.

Se Bolsonaro não se manifestar claramente, o país pode assistir a cada vez mais atos de violência, especialmente contra as minorias sobre as quais o presidente eleito já se manifestou de forma negativa ou pejorativa muitas vezes no passado.

Durante as comemorações pela vitória, algumas questões me chamaram a atenção: as palavras de ordem contra o PT e o primeiro pronunciamento do presidente eleito: é normal que a militância se ressinta em relação ao partido rival (especialmente porque o processo eleitoral se transformou numa espécie de plebiscito sobre a legenda fundada por Lula), mas cabe ao presidente eleito apaziguar o ambiente.

É preciso aguardar os acontecimentos e torcer para que Bolsonaro seja mais enfático quanto à universalidade do cargo que virá a ocupar (ele será o presidente mesmo daqueles que não votaram nele); o primeiro pronunciamento oficial se iniciou com um culto religioso. Isso soa bastante contraditório a alguém que repete sempre que possível estar a serviço da Constituição (que estabelece a laicidade do Estado).

Entre toda esta confusão, está muito claro que o país viverá um novo ciclo a partir de 1 de janeiro de 2019. Bolsonaro é repleto de contradições, mas agora precisará mostrar que as vestes do cargo serão capazes de transformar seu modo de atuação. Se não pode apagar tudo o que disse no passado, vai precisar mostrar competência e habilidade de forma a responder a todas as muitas questões e desafios que se apresentam desde já. A ideia de pacificação nacional passa por tudo isso.