A versão brasileira da extrema-direita internacional

01 de Novembro de 2018
Por Henry Galsky É importante dizer em meio a este grande processo de análise sobre o fenômeno que fez ascender Jair Bolsonaro não apenas à presidência da República, mas também à posição de mais novo midas da vida política brasileira, que seu caso não é único. Não, sua rápida evolução de candidato desprezado pelo meio político tradicional aos 57 milhões de votos recebidos não é um ato isolado, mas o capítulo nacional do populismo que se espalha rapidamente por todo o mundo. É claro que há cores próprias, mas esta é uma onda avassaladora que não começa – nem certamente se encerra – por aqui.
 
Nos anos 1990 e início dos 2000, Europa e EUA se consolidaram como democracias liberais com instituições fortes e diversidade política. O caso europeu é emblemático, uma vez que as economias mais avançadas do continente deram o passo seguinte; depois do fim da Guerra Fria e com as duas guerras mundiais ainda mais distantes, a promessa de paz parecia ter sido cumprida. Os nacionalismos e movimentos de extrema-direita estavam relegados à marginalidade política. Os países se alinharam economicamente depois da constituição da União Europeia (UE) na criação da moeda única, o euro.
 
Dando um salto bem rápido, a forte crise do final da primeira década dos anos 2000 pôs em xeque a força desta narrativa. As ideias transformadas em prática de liberalismo econômico, abertura de fronteiras e certeza de pacificação passaram a ficar desgastadas. O movimento de extrema-direita assumiu a dianteira como caminho alternativo, englobando para si uma série de outras bandeiras. No todo, este novo discurso passou a ser conhecido como populismo. A extrema-direita desafiou o liberalismo fazendo uso dos próprios mecanismos políticos existentes, não apenas de modo subversivo.
 
O parlamento europeu passou a receber eurodeputados eleitos nas urnas graças a discursos eurocéticos. É contraditório, mas ajuda a entender o momento atual. Lembrem-se no cenário brasileiro do Movimento Brasil Livre (MBL), da queima de bandeiras de partidos tradicionais, e, agora, do estabelecimento da segunda maior bancada na Câmara dos Deputados pelo PSL, sigla agregadora de neopolíticos que manifestam publicamente a ojeriza aos políticos.
 
Aos poucos, as vitórias passaram a se suceder: Hungria, Polônia, República Tcheca, EUA, Itália, Áustria, Brasil. As pautas comuns a todos esses atores muito distintos têm em seu ápice de ação e ruptura o Brexit, a decisão obtida por meio de referendo popular que provocou a saída da Grã-Bretanha da UE.
 
E aí retomo o ponto de argumentação; todo este movimento é como puxar um fio de novelo; está sustentado pela premissa fundamental de que as democracias liberais não cumpriram com suas promessas. Desta maneira, o próprio conceito de democracia passou a ser contestado. E aí vem o restante do fio: a globalização é culpada, portanto é preciso fechar fronteiras, rejeitar imigrantes, reforçar os nacionalismos, questionar a própria ciência (o Acordo de Paris sobre o clima é uma “mentira” financiada pelos liberais para impedir o crescimento econômico), deixar a União Europeia (como o caso da Grã-Bretanha), reescrever a História.
 
Diante desta enorme gama de possibilidades e bandeiras, a extrema-direita deixou os esgotos do mundo e ascendeu a alguns dos principais palcos do planeta, elegendo heróis simbólicos (os presidentes Donald Trump e Vladimir Putin) e vilões culpados pelo multiculturalismo que ameaça as identidades nacionais (a chanceler alemã Angela Merkel e o investidor sempre associado às pautas de esquerda George Soros).
 
No Brasil, as adaptações já foram feitas. O revisionismo histórico se aplicou à flexibilização dos crimes cometidos durante a Ditadura Militar; a família passou a estar em permanente “ameaça” pelas reivindicações da comunidade LGBT; e, claro, o comunismo (?) está sempre à espreita. E, como o superministro Paulo Guedes já declarou publicamente, “o Mercosul não é prioridade”.
 
Adaptações feitas, esta é a versão brasileira de um movimento internacional que a cada nova eleição ganha mais força. É uma onda que se retroalimenta em todo o mundo. Por aqui, os próximos quatro anos apresentarão seus desdobramentos.