A mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém

06 de Novembro de 2018
Por Henry Galsky Legenda da foto: a atual embaixada brasileira em Tel Aviv

No dia 12 de dezembro de 2017, escrevi um texto por aqui (“Trump, Jerusalém e o Juízo Final”) de forma a explicar parte das razões que motivaram o presidente americano a anunciar a transferência da embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Agora, com a grande repercussão das declarações do presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, demonstrando a intenção de seguir o mesmo caminho, acho válido iniciar esta reflexão a partir da mesma lógica que naquele momento apliquei a Donald Trump:

“o ‘presente’ da declaração sobre Jerusalém tem muito menos a ver com os judeus do que com a militância doméstica de Trump: os cristãos evangélicos.

Para parte significativa da comunidade evangélica americana, há uma interpretação sobre o Apocalipse, que também é chamado de 'O Livro da Revelação'. De acordo com esta teoria muito popular entre os cristãos evangélicos americanos e suas lideranças, é fundamental que os judeus procedam com a reconstrução do Grande Templo judaico de Jerusalém, na medida em que este projeto causaria um conflito internacional de grandes proporções - esta guerra poderia, portanto, abrir o caminho ao fim dos dias, ao Juízo Final previsto pelo Apocalipse e ao retorno de Jesus.

Como menciona a jornalista do israelense Haaretz Alisson Kaplan Sommer, Trump obteve percentual de 81% de votos entre eleitores evangélicos, índice superior inclusive ao recebido pelo ex-presidente George W. Bush. Para parte significativa deste eleitorado, Trump é o instrumento político que está conseguindo viabilizar os planos divinos. Portanto, é improvável imaginar algum tipo de estratégia de política externa mais elaborada neste momento”.

Trump e Jair Bolsonaro apresentam semelhanças. Aliás, o eleitorado brasileiro e norte-americano parece cada vez mais semelhante. É impossível dissociar a vitória nas urnas de Bolsonaro – e Trump, como já mencionei acima – do poder do eleitorado cristão evangélico. O perfil desta corrente do cristianismo no Brasil e nos EUA se aproxima cada vez mais, no caso brasileiro justamente em função de mudanças profundas das características sociais e religiosas por aqui.

De acordo com o IBGE, os cristãos compõem a maior parcela da população brasileira: 86,8%. O Brasil continua a ser o maior país católico do mundo, mas nos últimos 20 anos o percentual de perda católica foi de 22%.

Já os cristãos evangélicos seguem caminho oposto, representando o segmento religioso que mais cresce percentualmente. Em 1970, eram 5,2% dos brasileiros. De acordo com este censo do IBGE, em 2010 passaram a representar 22,2% das pessoas que se declaram pertencentes a algum grupo religioso.

É evidente que tal transformação do tecido da sociedade também apresenta impacto político. Aliás, o próprio presidente eleito Bolsonaro reflete esta mudança religiosa. Seus pais eram católicos, mas ele se converteu ao cristianismo evangélico. 

Para além das questões religiosas – que serão pelo visto fundamentais no governo Bolsonaro. O primeiro pronunciamento foi iniciado por uma oração –, há também a pública admiração do presidente eleito por Donald Trump, sinalizando a Washington antes mesmo da corrida eleitoral.

Bolsonaro também parece pretender seguir trajetória similar ao presidente americano. Como escrevo sempre por aqui, um dos balizadores das decisões políticas de Trump é eleger caminhos permanentemente opostos ao de seu antecessor, Barack Obama (por quem ainda nutre grande rivalidade).

Este modo de operação já foi demonstrado diversas vezes: se Obama seguia o multilateralismo, Trump rechaça a Otan; se Obama reforçava política mais preocupada com o meio ambiente, Trump abandona o Acordo do Clima assinado em Paris; se a maior obra internacional do governo Obama (ao lado da aproximação a Cuba) era o tratado sobre o programa nuclear iraniano, Trump abandona o acordo. Não faltam exemplos e eles certamente se multiplicarão até o final de seu governo.

Bolsonaro não tem um Obama. A rivalidade por aqui é ainda mais ampla. E aí concluo porque esses dados de certa maneira explicam a decisão do presidente eleito sobre a transferência da embaixada para Jerusalém. Segundo o Datafolha, 25% dos eleitores que declararam voto em Bolsonaro o fizeram por rejeição ao PT. Outros 13% o escolheram por concordar com seus valores pessoais e imagem, e aí estão incluídas as questões familiares e religiosas amplamente divulgadas durante a campanha.

Ou seja, o “Obama” de Bolsonaro são os 13 anos de Lula e Dilma na presidência da República. Se Lula e Dilma punham em prática política externa percebida como favorável aos países árabes e oposta aos EUA, o novo presidente brasileiro inclui a mudança nesta forma de atuação como mais um item em seu pacote de rejeições aos governos petistas. É o que ele chama de “política internacional sem viés ideológico”. Muito embora, claro, este novo caminho já esteja repleto de ideologia, como explico ao longo deste texto.