Como os mísseis do Hamas bagunçaram o cenário político em Israel

15 de Novembro de 2018
Por Henry Galsky A sensação de instabilidade política nunca foi tão explícita ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A crise dos mísseis em Gaza – o maior confronto direto contra o Hamas desde a guerra de 2014 – deixou o líder do país no centro das críticas. E elas vêm de toda a parte. Ao pedir demissão do cargo de ministro da Defesa, Avigdor Lieberman deu forma ao momento de fragilidade que o longevo primeiro-ministro enfrenta. Esta é a pior crise do governo. 

A percepção de que o Hamas detém o controle sobre quando confrontos devem ser iniciados e interrompidos representa a antítese da ideia que a coalizão liderada por Netanyahu sempre buscou representar ao público doméstico. Os três dias de lançamentos de mísseis pelo Hamas e contra-ataques de Israel carregam a possibilidade de se transformar num ponto de inflexão do mandato atual. A ponto de ser celebrado pelas lideranças dos grupos palestinos pelas ruas de Gaza. A comemoração – que teve direito a “marcha da vitória” pelo território costeiro – foi ainda mais encorpada a partir da crise que o comunicado de demissão de Lieberman instalou de vez em Israel. 

A Jihad Islâmica, que realiza operações terroristas em parceria com o Hamas (grupo que efetivamente controla Gaza desde 2007), diz ter conseguido “despedaçar a política israelense ao mesmo tempo em que deteve (Israel) pelas vias militares”. O Hamas seguiu pelo mesmo caminho, declarando ter “semeado confusão nas considerações políticas (em Israel)”. 

Ao anunciar que abandonaria o cargo, levando consigo os cinco assentos que o Israel Beiteinu (seu partido) detém no Knesset, Lieberman disse claramente que o cessar-fogo aprovado pelo gabinete de segurança do país representava capitulação diante do Hamas. Depois da atitude, a saída oficial do partido da coalizão governamental deixa Netanyahu em maioria parlamentar – e, portanto, na liderança executiva do país – pela margem mínima de apenas um membro no Knesset (61 deputados compõem a maioria num universo de 120 cadeiras). 

Mesmo já bastante intensa, a lista de problemas diante de Netanyahu não se limita ao que escrevi acima. Ainda no governo, apesar da declaração de que todos os membros do gabinete de segurança foram favoráveis ao cessar-fogo (a reunião que apresentou esta decisão teve seis horas de duração), agora que a crise está oficialmente instalada há desmentidos também em relação a este ponto. Quatro ministros foram a público para declarar que se opuseram ao acordo: além de Lieberman, Zeev Elkin, ministro de Assuntos de Jerusalém e Proteção Ambiental (membro do Likud, o partido de Netanyahu), Naftali Bennet, ministro da Educação (partido A Casa Judaica), e Ayelet Shaked, ministra da Justiça (também do partido A Casa Judaica).
 
A situação envolvendo o ministro Naftali Bennet merece um aparte. Desde a Segunda Guerra do Líbano, em 2006, Bennet é figura em franca ascensão na política israelense. Com vitórias expressivas nas urnas, credenciou-se a protagonista do cenário doméstico, passando a compor a restrita lista de favoritos à sucessão do próprio Benjamin Netanyahu. A crise atual pode representar um salto ainda mais importante em sua trajetória de sucesso. Na sequência do pedido de demissão de Lieberman, o partido A Casa Judaica exige que, de forma a continuar no governo, Netanyahu entregue a Bennet a pasta de Segurança que ficou vaga. 

A ideia inicial do primeiro-ministro era acumular mais este ministério (ele já tem sob sua responsabilidade o executivo e as Relações Exteriores), mas a forte pressão exercida por Bennet e seus apoiadores coloca Netanyahu diante de escolhas importantes: dobra a aposta (e precisará convocar eleições, na medida em que pode deixar de ter a maioria de parlamentares em sua coalizão) ou cede e entrega poder e visibilidade a um de seus mais poderosos concorrentes?

Hoje, a situação do governo é de maioria mínima. Benjamin Netanyahu é sustentado por uma coalizão de cinco partidos. Dentre eles, A Casa Judaica, de Bennet, com oito assentos no Knesset. Se o partido passar para a oposição, o governo perde a maioria.

Tudo isso está em jogo. Tudo isso causado pelos ataques lançados por Hamas e Jihad Islâmica.