O antissemitismo retoma seu protagonismo político

30 de Novembro de 2018
Por Henry Galsky A retirada da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), que passou a ser conhecida como Brexit, a vitória de Donald Trump nos EUA, a ascensão de regimes de extrema direta na Europa, a contestação oficial de muitos desses governos ao aquecimento global e às mudanças climáticas em curso representam, conjuntamente, parte de um processo de avanço oficial conservador conhecido, mas que segue acompanhado de suportes conceituais cujos propósitos são, acima de tudo, combater o que seus militantes chamam de “Globalismo”.
 
O termo ganhou força, legitimidade e adesão de governos importantes ao redor do mundo – o mais importante deles, o governo americano – graças em boa medida a Steve Bannon (foto), ex-editor do site Breitbart News, ex-estrategista chefe de Donald Trump e responsável diretamente por dar forma e peso a este novo movimento político que ele mesmo passou a chamar de direita alternativa (apenas “Alt-Right”, em inglês).
 
Para Bannon e seus correligionários, a humanidade – e nos caso americano, os EUA, claro – está ameaçada por uma elite global que planeja destruir a pureza do patriotismo, da família e do cristianismo por meio da promoção de valores internacionalistas que incentivam ondas de imigração desenfreadas aos países desenvolvidos, o temor a mudanças climáticas (que para a nova extrema direita é apenas uma narrativa mentirosa para ameaçar os empregos nacionais), a integração entre mercados, o Acordo Transpacífico, a União Europeia, a agenda LGBT, entre outros.
 
Para esta nova extrema direita – cujas bandeiras são uma atualização de velhas ideias – o projeto ocorre por meio dos banqueiros, de governos liberais, do controle da mídia. Cada um desses países elege pautas nacionais, mas, em comum, um aspecto antigo, mas que se renova a cada geração: o antissemitismo.
 
A extrema direita, como não poderia deixar de ser, encontra nos judeus a origem de todas as ameaças. Os velhos mantras antissemitas são reproduzidos sem qualquer constrangimento: os judeus controlariam os bancos, as finanças, os governos globais, a mídia. Isso não é novo, absolutamente. Não apenas esses estereótipos acompanharam a Europa na Idade Média, mas também Hitler fazia questão de reafirmá-los. Os judeus não teriam vínculo com a pátria, com o solo, ameaçando, portanto, o destino manifesto dos verdadeiros cidadãos. Aos antissemitas de hoje bastaram algumas adaptações. A mensagem continua a mesma.  
 
É inevitável associar o crescimento do antissemitismo a este novo movimento de extrema direita, embora – é sempre importante deixar claro – muitos desses estereótipos sobre os judeus que citei acima são usados pela extrema direita e pela extrema esquerda igualmente – o antissemitismo que busca nos judeus a causa para todos os problemas globais talvez seja um dos poucos pontos de convergência entre essas duas correntes políticas em oposição permanente.
 
O crescimento do antissemitismo não é uma hipótese, mas é refletido em pesquisa encomendada pela rede de TV CNN. Na Europa, 28% dos entrevistados disseram que os judeus têm influência demais nas finanças globais; 23% disseram o mesmo quando perguntados sobre conflitos mundiais. Sobre as comunidades judaicas locais, 57% acreditam que os judeus representariam pelo menos 3% da população do país – quando, na verdade, apenas em Israel os judeus compõem mais de 2% da população. A narrativa repetida quanto ao poder dos judeus é tão bem-sucedida que 24,38% dos húngaros entrevistados acreditam que os judeus são ao menos 20% da população mundial, quando, na verdade, compõem apenas 0,2% da humanidade.
 
A bandeira do antissemitismo voltou a se tornar uma força política relevante em boa medida porque, graças a esforços de figuras como Steve Bannon, ela é capaz de unir os mais diversos movimentos da nova extrema direita. E refiro-me especificamente à extrema direita – e não à extrema esquerda, igualmente antissemita – porque há neste momento uma tendência de experiências eleitorais vencedoras deste novo formato de governos de direita, a Alt-Right, como escrevi acima. Esta experiência Alt-Right também assumirá o governo aqui no Brasil a partir de 1 de janeiro.
 
No entanto, é bom deixar claro também que os estereótipos antissemitas aplicados para justificar a luta contra o Globalismo também foram usados por diversos outros governos que não poderiam ser considerados membros do “clube” mais tradicional desta nova extrema direita, casos de Turquia e Rússia, por exemplo. Mas, ainda sim, e justamente em função disso, fica evidente o poder do novo termo e da força que Bannon e seu discurso conseguiram obter nos mais diversos círculos políticos e sociais.
 
A nova onda de antissemitismo é mais um dos efeitos colaterais do resgate da militância nazista – que durante boa parte do século 20 esteve relegada às margens da sociedade. Agora, muitos de seus membros passaram a marcar presença nos principais centros decisórios em todo o mundo e assim, claro, puderam retomar velhas pautas para apresentá-las em nova embalagem.